Entre bets, Banco Master e jogo do bicho: o silêncio da Globo com as polêmicas de Luciano Huck

Esse artigo explicita claramente a contradição de membros da elite brasileira que defendem princípios quando lhes convém, mas os abandonam quando seus interesses são seriamente ameaçados. É a hipocrisia do libertarismo seletivo da elite brasileira

Por

As declarações de Luciano Huck sobre o Bolsa Família talvez tenham produzido algo mais grave do que uma simples fala elitista: elas expuseram, mais uma vez, a blindagem institucional que o apresentador parece possuir dentro da Grupo Globo, mesmo após uma longa sequência de polêmicas, denúncias e episódios controversos acumulados ao longo dos anos.

Ao dizer, diante de empresários no Fórum Esfera, que beneficiários criam “atalhos” para permanecer no Bolsa Família “ad aeternum”, Huck reproduziu o velho discurso de criminalização da pobreza. Mas o problema não termina na declaração. Ele se agrava quando o apresentador tenta minimizar a repercussão alegando que falava em um “evento fechado”, como destacou o jornalista Moisés Mendes. 

“A frase revelou aquilo que muitos suspeitam: parte da elite econômica brasileira diz em ambientes reservados aquilo que não teria coragem de sustentar diante da população, ressaltou Mendes.

O professor João Cezar Castro Rocha foi ainda mais duro ao definir Huck como exemplo clássico do “liberal do bolso alheio”. Segundo ele, há hipocrisia em condenar programas sociais enquanto o próprio apresentador teria recorrido a financiamento subsidiado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) – com juros reduzidos e prazo privilegiado – para comprar um jatinho de quase R$ 18 milhões. 

Para João Cezar, Huck simboliza uma elite que demoniza auxílio aos pobres, mas não hesita em recorrer ao Estado quando o benefício atende seus interesses pessoais.

Luciano Huck recebeu cerca de R$ 18 milhões do BNDES, para compra do jatinho Phenom 505 PP-HUC, da Embraer. Com juros subsidiados de 3% ao ano, cinco meses de carência e prazo de 114 meses para pagamento.

Mas a questão central vai além da pobreza espiritual de Huck. Onde está o compliance da Rede Globo diante de tantas controvérsias envolvendo um de seus principais rostos? Afinal, compliance corporativo não existe apenas para produzir cartilhas internas sobre assédio moral e sexual. 

Compliance pressupõe vigilância ética, análise reputacional, prevenção de conflitos de interesse e responsabilidade institucional diante da sociedade. Como acontece no departamento de jornalismo da própria emissora que pune – sem rodeios – profissionais de comunicação suspeitos de qualquer irregularidade em seu trabalho. Qual a diferença da ética entre o jornalismo da emissora e o entretenimento/comercial? Por que um é vigiado constantemente (como deveria ser mesmo) e o outro é escancaradamente libertino?

E os episódios envolvendo Huck se acumulam sem qualquer reação pública conhecida da Globo. Uma publicação feita por ele, em suas redes sociais, durante a Copa de 2014, realizada no Brasil, foi interpretada como estímulo ao turismo sexual, pois incentivava mulheres brasileiras a encontrarem um “príncipe encantado” entre os turistas. Seria cômico se não fosse misógino. 

Houve denúncias de danos ambientais envolvendo sua mansão em Angra dos Reis, além de acusações de fechamento irregular de trechos de praia pública em frente à residência para uso privado do apresentador, de sua família e amigos.

No ano passado, ocorreu uma gravação no Parque Indígena do Xingu, onde Huck foi acusado de propagar estereótipos culturais. Nos bastidores da produção do vídeo, Luciano pediu para os indígenas esconderem celulares, tirarem a roupa do dia a dia e que “limpassem a cultura” para adequar a imagem à estética televisiva. É a discriminação étnica a serviço da “cenografia visual” da Casa Grande, perdão, do Jardim Botânico.

Recentemente sucederam acusações e questionamentos sobre relações com o setor bilionário das bets, justamente em um momento em que milhões de brasileiros – inclusive beneficiários do Bolsa Família – se afundam em dívidas alimentadas por apostas online.

Nesse ponto, o silêncio da Rede Globo se torna ainda mais constrangedor. Huck virou garoto-propaganda da BetMGM enquanto a própria emissora e seus programas ampliavam espaço publicitário para o mercado das apostas. 

O caso do Banco Master e do Will Bank, aprofundou os questionamentos sobre a relação entre Luciano Huck, Daniel Vorcaro, o “Domingão” e campanhas comerciais milionárias dentro da Grupo Globo. Nas chamadas “Willimpíadas”, exibidas aos domingos na TV Globo, Huck incentivava o público a abrir contas e movimentar o aplicativo do Will Bank em troca de pontos para participar do programa e disputar prêmios de até R$ 1 milhão. 

Foto do programa da TV Globo, Domingão com Huck, com a Willimpíadas sendo exibida para todo o Brasil

A ação gamificada transformou operações financeiras, como PIX e pagamentos, em etapas de uma competição transmitida ao vivo que reuniu mais de 200 mil inscritos em 24 estados e ajudou o banco digital a ultrapassar rapidamente a marca de 12 milhões de clientes.

Segundo relatos do mercado publicitário, a campanha teria movimentado mais de R$ 160 milhões em publicidade e ações comerciais dentro da emissora. O problema é que, enquanto o compliance corporativo da Rede Globo permanecia em silêncio, a máquina de promoção seguia operando em larga escala, associando a credibilidade da TV Globo e de Huck ao crescimento acelerado do banco digital de Vorcaro.

Após as crises envolvendo o grupo financeiro de Daniel Vorcaro, milhares de clientes do Will Bank relataram bloqueios de saldo, dificuldades no uso de cartões e outros prejuízos financeiros, levantando questionamentos sobre responsabilidade reputacional, publicidade agressiva e ausência de fiscalização ética mais rigorosa por parte da emissora.

Huck vendeu seu iate por R$ 30 milhões, para um empresário do ramo de bets e que possui, com sua família, 2.200 bancas de jogo do bicho em Pernambuco.

Também chama atenção a proximidade de Luciano Huck com empresários ligados ao universo das apostas, como no episódio da venda do seu iate Bejoa, de 120 pés (quase 40 metros de comprimento) para Darwin Henrique da Silva Filho, ligado ao grupo Esportes da Sorte e herdeiro de estrutura associada ao jogo do bicho em Pernambuco. 

Soma-se a tudo isso a controversa contratação de Virgínia Fonseca, influenciadora digital e ex-namorada do jogador de futebol, Vinícius Júnior, como repórter do programa da TV GloboDomingão com Huck, para fazer cobertura jornalística da Copa do Mundo de 2026. 

A contratação de Virginia foi criticada por vários profissionais de comunicação, entre eles, o jornalista Juca Kfouri que classificou o episódio como “um acinte ao jornalismo”.

A pergunta inevitável é: o compliance da Globo vale para todos ou existe um regime especial de blindagem para suas maiores estrelas? Porque, diante da quantidade de episódios envolvendo Luciano Huck, o silêncio institucional já não parece prudência corporativa. Parece complacência.

As declarações de Luciano Huck contra o Bolsa Família provocaram forte repercussão negativa nas redes sociais e grupos de WhatsApp, com uma avalanche de memes, críticas e acusações de elitismo. O jornalista Reinaldo Azevedo, por exemplo, comparou o discurso de Huck ao do governador Romeu Zema e o ironizou ao perguntar se o apresentador teria se tornado “coach do Zema” na criminalização da pobreza e dos programas sociais.

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *