Há coincidências que, isoladamente, podem não dizer muita coisa. Quando começam a se encontrar no mesmo período, envolvendo bilhões de reais, grandes empresas, um banco, uma revista e um julgamento no Supremo Tribunal Federal, pelo menos merecem ser observadas.
Justamente quando o STF volta a discutir uma antiga disputa envolvendo indenizações bilionárias cobradas da União por empresas do setor sucroalcooleiro, o Instituto Combustível Legal (ICL) publicou na revista Veja um anúncio exaltando a importância estratégica do etanol para o Brasil.
O texto fala em proteger a cadeia produtiva, os investimentos, a concorrência, a transição energética e “o futuro de uma das maiores oportunidades econômicas do país”. O discurso é legítimo. A coincidência de datas, porém, chama a atenção.
O processo levado ao Plenário do STF pelo ministro Gilmar Mendes envolve justamente a Raízen Energia e outras empresas do setor. A discussão é sobre indenizações decorrentes da política de preços praticada pelo extinto Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA) e sobre a necessidade de comprovação, por perícia individual, do prejuízo efetivamente sofrido pelas usinas.
A disputa bilionária no STF, porém, não é o único ponto em que os interesses econômicos do setor sucroalcooleiro encontram decisões do poder público. Enquanto Cosan e Raízen discutem com a União indenizações originadas no antigo IAA, o mercado de etanol acaba de ganhar um novo impulso por decisão do próprio governo federal.

Desde 1º de agosto, a gasolina comum vendida no Brasil passou a conter 32% de etanol, contra os 30% anteriores. A decisão reduz a necessidade de importação de gasolina e, ao mesmo tempo, amplia compulsoriamente o mercado para os produtores de etanol.
Para gigantes do setor, como a Raízen, significa potencialmente mais espaço para vender seu produto. Para o motorista, entretanto, a equação pode ser diferente: como o etanol possui menor poder energético que a gasolina, a maior mistura pode reduzir a autonomia, além dos riscos para parte da frota apontados por entidades do setor automotivo.
Forma-se, assim, um contraste interessante. De um lado, empresas do setor sucroalcooleiro buscam receber da União valores bilionários decorrentes de uma política pública do passado. De outro, uma política pública atual amplia o mercado para o etanol. Nos dois extremos da história aparece o Estado. Resta saber quem ficará com os benefícios e, principalmente, quem terminará pagando a conta. Ao que parece, parte dela pode acabar chegando ao consumidor, na bomba ou na oficina.
E é justamente aí que a discussão volta ao ponto de partida deste artigo. Não se trata de uma disputa pequena. O processo levado ao Supremo pode envolver dezenas de bilhões de reais. E a Raízen aparece diretamente no processo que chegou ao STF.
A Raízen, por sua vez, está entre as empresas associadas ao Instituto Combustível Legal, responsável pelo anúncio publicado na Veja. O ICL reúne algumas das maiores companhias do mercado de combustíveis e mantém uma atuação institucional declarada junto à sociedade, ao governo, ao Judiciário e ao Legislativo.
Há outro detalhe importante. A discussão chega ao Supremo justamente quando a Raízen atravessa uma profunda reestruturação financeira. A companhia entrou em recuperação extrajudicial para renegociar aproximadamente R$ 65 bilhões em dívidas. A empresa pertence à Cosan e à Shell, e Rubens Ometto permanece como uma das figuras centrais dessa estrutura empresarial.

É nesse ponto que aparece outro personagem: André Esteves. Desde novembro de 2025, Esteves é vice-presidente do Conselho de Administração da Cosan. Sua chegada ocorreu depois de o BTG Pactual participar de uma grande capitalização da companhia e passar a integrar sua base acionária.
Portanto, o banqueiro não está apenas próximo financeiramente da Cosan. Ocupa formalmente um dos principais cargos de seu Conselho de Administração. E onde foi publicado o anúncio do ICL em defesa da importância estratégica do etanol? Na revista Veja.
Aqui aparece outra coincidência. André Esteves não é dono da Veja e não há evidência de que controle sua linha editorial. A revista pertence ao Grupo Abril, de Fábio Carvalho. Mas a relação empresarial entre Carvalho, Abril e BTG Pactual vem de vários anos.
Quando Fábio Carvalho assumiu o Grupo Abril, em meio à recuperação judicial da editora, o BTG teve papel importante na operação. O banco emprestou R$ 70 milhões para capital de giro e, por meio da Enforce, participou da aquisição de créditos contra a companhia. Em 2019, o próprio BTG comprou da Abril a revista Exame por R$ 72,3 milhões.

A relação empresarial continuou. Em setembro de 2026, a Abril acertou a transferência de 8,58% da holding que controla a Total Express para o BTG como forma de quitar uma dívida com o banco.
Essa proximidade já havia despertado questionamentos anos atrás. Em 2019, O Antagonista publicou que, embora Esteves dissesse não ter interesse em controlar a Veja, existia no mercado a avaliação de que ele poderia exercer influência sobre a linha editorial da revista em razão de suas ligações com Fábio Carvalho. Era uma avaliação atribuída pelo site ao mercado, não uma comprovação de interferência editorial.
Agora, sete anos depois, as peças voltam a aparecer curiosamente próximas. A Raízen, associada do ICL, enfrenta uma gigantesca reestruturação financeira. Sua controladora Cosan tem André Esteves como vice-presidente do Conselho de Administração. O BTG tornou-se acionista relevante da Cosan.
Esteves e o BTG mantêm uma longa relação empresarial e financeira com Fábio Carvalho e o Grupo Abril. E é justamente na Veja, publicada pela Abril, que Emerson Capaz, presidente do ICL divulga uma campanha ressaltando a necessidade de proteger o etanol e os investimentos no setor.
Tudo isso ocorre quando o STF volta a discutir uma disputa bilionária envolvendo antigas indenizações do setor sucroalcooleiro, num processo que tem a Raízen entre as partes interessadas.
Não há elementos para afirmar que o anúncio tenha sido publicado para influenciar o Supremo. Tampouco há evidência de que André Esteves tenha interferido na publicação ou no conteúdo da Veja. Fazer essas afirmações seria transformar coincidências e relações empresariais conhecidas em uma conclusão que os fatos disponíveis não permitem.
Mas jornalismo também consiste em colocar fatos lado a lado. O anúncio do ICL de Emerson kapaz fala em proteger o etanol, os investimentos e o futuro do setor. O STF discute bilhões de reais que podem interessar a empresas desse mesmo setor. A Raízen está dos dois lados dessa paisagem: é associada do instituto que assina o anúncio e parte no processo que chegou ao Supremo.
Pode ser apenas uma sucessão de coincidências. Mas são muitas coincidências dividindo a mesma página, os mesmos interesses econômicos e, principalmente, o mesmo momento. Só para registrar todas essas coincidências.


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