Porque, quando se observa o que aconteceu durante a campanha, principalmente em São Paulo e Pernambuco, surge uma pergunta bastante simples: o Partido Socialista Brasileiro (PSB) ajudou Lula e Fernando Haddad ou conseguiu transformar uma aliança eleitoral numa coleção de problemas?
Em São Paulo, onde Márcio França era candidato a vice-governador na chapa de Fernando Haddad, o PSB terminou a eleição com apenas dois deputados federais eleitos: Tabata Amaral e Jonas Donizette. Um resultado que, por si só, ajuda a dimensionar a força eleitoral da legenda no maior colégio eleitoral do país.
Mais do que o número de eleitos, porém, chama a atenção a maneira como partes do próprio partido fizeram campanha. Jonas Donizette, um dos dois deputados federais eleitos pelo PSB paulista, concentrou sua campanha em seu próprio nome e número.

Em material distribuído principalmente na região de Campinas, seu reduto eleitoral, e no Circuito das Águas Paulista, formado por Águas de Lindóia, Amparo, Holambra, Jaguariúna, Lindóia, Monte Alegre do Sul, Pedreira, Serra Negra e Socorro, apareciam Jonas e Jonas. Donizette, só com Donizette.
Nada de governador. Nada de senador ou senadora. Nada de candidato a presidente. Era quase uma coligação de Jonas Donizette com Jonas Donizette. E ele conseguiu o que pretendia: foi reeleito deputado federal. O PSB estava na chapa de Haddad, Márcio França era o candidato a vice-governador, mas, pelo menos nessa campanha regional, cada um parecia cuidar do próprio CPF eleitoral.

Esse talvez seja o retrato mais preciso do PSB paulista em 2026: uma sigla em que o projeto coletivo parecia terminar exatamente onde começava o interesse eleitoral individual. O outro nome escolhido pelo PSB para tentar ampliar sua bancada federal foi José Luiz Datena.

A campanha chegou a distribuir cerca de mil adesivos com o desenho de uma cadeira, seu número eleitoral e o bordão “É brincadeira”, numa referência evidente à cadeirada de Datena em Pablo Marçal durante o debate da eleição municipal de 2024.
A peça foi produzida pela equipe de marketing do PSB. Datena afirmou que não havia autorizado o material, disse não ter orgulho do episódio e determinou a interrupção da distribuição. Mesmo assim, a imagem talvez tenha resumido involuntariamente a campanha.
Datena, que se tornou nacionalmente conhecido durante décadas apresentando programas policialescos na televisão, recebeu pouco mais de 51 mil votos e não se elegeu deputado federal. Ficou como primeiro suplente do PSB. O “Zé Cadeirada” não chegou à Câmara dos Deputados. Nas urnas, teve uma votação baixa, parecida com a audiência que alcançava no final da carreira na televisão.
E a tão esperada expansão da bancada socialista paulista terminou com apenas duas cadeiras. Tudo isso aconteceu num partido que tinha seu principal líder paulista, Márcio França, ocupando o posto de vice na chapa de Fernando Haddad. Mas o problema do PSB não ficou restrito a São Paulo.
Em Pernambuco, o partido conseguiu criar outro problema para Lula. O presidente mantinha boa relação política e administrativa com a governadora Raquel Lyra, do PSD. Ela, por sua vez, procurava manter distância da disputa presidencial e queria Lula neutro na eleição estadual. Só que havia João Campos, do PSB, seu adversário.

O candidato do PSB precisava transformar Lula em cabo eleitoral e pressionou para ter o presidente ao seu lado. Lula entrou na campanha, apoiou João Campos e participou de ato eleitoral ao lado dele. O resultado foi especialmente incômodo para o presidente. João Campos perdeu. Raquel Lyra foi reeleita governadora já no primeiro turno, com 53,3% dos votos válidos.
E agora, quando Lula precisa ampliar sua base para disputar o segundo turno presidencial, Raquel Lyra demonstra resistência justamente em apoiá-lo. Segundo a Folha de S.Paulo, aliados da governadora lembram que ela havia pedido neutralidade ao presidente. Lula, porém, acabou pressionado a ir ao Recife e subir no palanque de João Campos.
Ou seja: Lula entrou numa disputa estadual para ajudar o PSB, o PSB perdeu e o presidente corre o risco de perder também o apoio da vencedora. É difícil imaginar uma parceria eleitoral mais eficiente para o adversário.

E a campanha de João Campos ainda carregou outro problema nos últimos dias antes da eleição. Carlos Costa, do Republicanos, candidato a vice-governador na chapa de João Campos, apareceu em mensagens obtidas pela Polícia Federal na investigação do Banco Master.
Segundo reportagens publicadas Daniel Vorcaro discutiu com seu advogado a manutenção de um contrato de R$ 100 mil mensais relacionado a Carlos Costa. Foram identificadas notas fiscais referentes à prestação de serviços de consultoria e relações governamentais. Costa é irmão de Silvio Costa Filho, que comandou o Ministério de Portos e Aeroportos no governo Lula.
As reportagens não demonstram, por si, ilegalidade nos pagamentos. Mas, em plena campanha, a associação do candidato a vice de João Campos ao nome de Daniel Vorcaro e ao Banco Master certamente estava longe de ser o tipo de notícia que Lula gostaria de carregar para dentro de um palanque eleitoral.
São Paulo, porém, continua sendo o laboratório mais interessante para entender o funcionamento do PSB. Márcio França deixou o Ministério da Microempresa para ser candidato a vice de Haddad. Após deixar o cargo, passou pelo período de quarentena remunerada previsto para determinadas autoridades.
Politicamente, a situação já era curiosa: França saiu do governo Lula para tentar ajudar Haddad a derrotar Tarcísio de Freitas, mas continuou recebendo durante a quarentena salário de ministro. Pelo menos a teoria era ajudar Haddad.
Na prática, uma parte do PSB paulista parecia ter outros planos. Akira Auriani, prefeito de Rio Grande da Serra pelo PSB, participou de articulação de prefeitos do Grande ABC em favor da reeleição de Tarcísio de Freitas.
Não era apoio escondido. Akira esteve ao lado de outros prefeitos na organização da campanha regional do governador, justamente o adversário de Fernando Haddad, cuja chapa tinha Márcio França, do mesmo PSB, como candidato a vice.
O próprio Akira explicou publicamente que havia recebido atenção do governo estadual, com recursos para saúde e infraestrutura, e que, diante da falta de protagonismo do PSB na articulação com Márcio França, decidiu seguir com Tarcísio.
É uma explicação politicamente devastadora para o próprio partido. Um prefeito do PSB estava dizendo, em outras palavras, que não encontrou no PSB motivos suficientes para apoiar a chapa que tinha um dos principais nomes do PSB como vice.
Há ainda Anderson Pomini, presidente da Autoridade Portuária de Santos e antigo aliado de Márcio França. Foi França, quando ministro de Portos e Aeroportos, quem o indicou para comandar o Porto de Santos. Antes disso, os dois tiveram ligação profissional na advocacia, no escritório de Pomini, na Rua Padre João Manoel, 755, conj. 111, no bairro de Cerqueira Cesar, em São Paulo.

Em agosto, pouco mais de um mês antes das eleições de 2026, Pomini apareceu num jantar promovido por Marcos Pereira, presidente nacional do Republicanos,partido de Tarcísio de Freitas. O encontro reuniu políticos, empresários e outras autoridades em apoio ao governador Tarcísio de Freitas.
Participar de um jantar evidentemente não significa declarar apoio político a ninguém. Mas, em plena campanha, a fotografia produzia uma ironia difícil de ignorar, pois Márcio França estava na chapa de Haddad, como vice, tentando derrotar Tarcísio de Freitas.
Enquanto isso, Haddad precisava continuar explicando que tinha o apoio do PSB. Talvez o problema tenha sido exatamente esse: ninguém conseguiu explicar qual PSB estava com Haddad.
O PSB de Márcio França? O de Caio França? O do prefeito Akira Auriani? O do deputado federal Jonas Donizette?
Qual o PSB que estava com Haddad e qual o PSB que preferia Tarcísio? A eleição de 2026 deixou exposta uma questão que vai muito além de divergências individuais. Mostrou que o PSB paulista é um partido sem comando político, incapaz de fazer sua própria estrutura seguir uma estratégia comum.
Em Pernambuco, a conta política do PSB talvez seja ainda mais pesada. Lula entrou na campanha para ajudar João Campos. João perdeu. Raquel Lyra ganhou. E agora, quando Lula precisa dela no segundo turno presidencial, a governadora reeleita demonstra justamente resistência em apoiá-lo. O PSBperdeu Pernambuco e pode ter deixado a conta para Lula pagar.
Talvez seja esse o grande paradoxo eleitoral de 2026. O PT passou a campanha preocupado em derrotar seus adversários. Em alguns momentos, porém, deveria ter prestado mais atenção aos próprios aliados. Com o PSB como amigo, o PT ainda precisava de inimigos?


Deixe um comentário