RZK, Banco Master e as torres do Cidade Jardim: uma história de milhões, zoneamento e poder

É uma transformação capaz de redesenhar definitivamente a fotografia do entorno do Jockey Club e do próprio bairro, no coração de uma das regiões mais valorizadas da cidade de São Paulo

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A disputa entre os moradores do Cidade Jardim e a verticalização de uma das regiões mais tradicionais e arborizadas de São Paulo ganhou um novo e decisivo capítulo. De um lado, associações de bairro, milhares de assinaturas em abaixo-assinado e uma batalha judicial para preservar as características de uma área historicamente residencial, marcada por casas, ruas arborizadas e construções de baixa altura.

Do outro lado está uma transformação imobiliária de enormes proporções: projetos que, juntos, preveem 19 torres de até 38 andares e aproximadamente 550 mil metros quadrados de área construída. No centro dessa mudança aparece a RZK, de José Ricardo Lemos Rezek, responsável pelo complexo Península que poderá alterar definitivamente a paisagem do Cidade Jardim e do entorno do Jockey Club de São Paulo.

A dimensão dos projetos assustou os moradores. A discussão deixou de ser apenas sobre prédios e passou a envolver trânsito, infraestrutura, segurança, arborização, impacto ambiental e, sobretudo, a capacidade de um bairro predominantemente residencial absorver tamanho adensamento, como relatou a Jovem Pan.

Mas, até agora, quando se observa a trajetória política, administrativa e judicial do caso, chama a atenção como as barreiras encontradas pelo caminho não foram suficientes para sepultar os projetos.

Trocaram o condomínio horizontal pelo vertical e acabaram com ruas fechadas e monitoradas

Há outro episódio que aumenta a desconfiança dos moradores sobre a transformação do Cidade Jardim. A RZK afirma que adquiriu os imóveis originalmente para implantar condomínios horizontais e que somente depois das mudanças aprovadas pela Câmara Municipal decidiu readequar o projeto aos novos parâmetros urbanísticos. 

A sequência dos acontecimentos chama atenção. Enquanto a RZK adquiria imóveis alegando a intenção de construir condomínios horizontais, o Ministério Público de São Paulo (MP) intensificava sua atuação contra cancelas e portões instalados havia décadas em ruas do Morumbi, Jardim Guedala e Cidade Jardim. 

O argumento do MP é jurídico. O Ministério Público entende que determinadas vias públicas não poderiam permanecer com acesso controlado. Para os moradores, entretanto, a retirada dessas estruturas significou a perda de um mecanismo de segurança utilizado há mais de 20 anos e, segundo seus relatos, trouxe maior sensação de insegurança e exposição à criminalidade na região.

O resultado dessa combinação preocupa as associações de bairro: de um lado, mudanças no zoneamento abriram espaço para a verticalização; de outro, ruas antes controladas passaram a ser reabertas, aumentando a circulação e modificando as características dessas áreas. 

Não há demonstração de que uma coisa tenha sido feita para beneficiar a outra. Mas é nesse ponto que a mudança de discurso da RZK merece explicações. Como um projeto apresentado inicialmente como destinado a condomínios horizontais acabou transformado em um gigantesco complexo de torres?

A primeira barreira para construção dos 19 prédios caiu na Câmara Municipal de são Paulo

A mudança começou com a revisão da Lei de Zoneamento. Quadras do Cidade Jardim que estavam submetidas a regras muito mais restritivas passaram a receber classificação com maior potencial construtivo.

Em abril de 2024 a Câmara Municipal derrubou 17 dos 58 vetos do Executivo. Na própria sessão ocorreram manifestações alertando para a existência de Zona de Estruturação Metropolitana em área residencial do Cidade Jardim, no entorno do Jockey Club, com a possibilidade da construção de prédios sem limite de altura, como noticiou a Folha de S.Paulo.

A partir daí, o que era preocupação urbanística ganhou números concretos: foram apresentados pedidos relacionados a 19 torres, 13 delas com mais de 30 andares. As sociedades de moradores reagiram e um abaixo-assinado contra os empreendimentos chegou a aproximadamente 6 mil assinaturas.

E a RZK cresceu também fora do Cidade Jardim 

Enquanto enfrentava a resistência dos moradores no bairro, a RZK avançava em outra frente, desta vez diretamente ligada ao Governo do Estado. Em fevereiro de 2026, o consórcio MEZ-RZK Novo Centro venceu o leilão da PPP para construir e operar o Novo Centro Administrativo do Governo de São Paulo, nos Campos Elíseos.

Trata-se de um projeto estimado em R$ 6 bilhões, com contrato de 30 anos e previsão de reunir cerca de 22 mil servidores estaduais. O consórcio venceu a concorrência oferecendo desconto de 9,62% sobre a contraprestação pública mensal máxima de R$ 76,6 milhões.

É difícil ignorar, portanto, o tamanho do espaço conquistado pela empresa de José Ricardo Lemos Rezek. Ao mesmo tempo em que participa de um dos maiores projetos imobiliários da gestão estadual, a RZK está à frente de um empreendimento privado capaz de alterar profundamente uma das regiões residenciais mais valorizadas da capital.

Isso, por si só, não demonstra favorecimento ou irregularidade. Demonstra, porém, o tamanho que a empresa passou a ocupar no tabuleiro imobiliário paulista e torna ainda mais necessária a transparência sobre decisões públicas que possam afetar seus empreendimentos.

Dizem que os moradores venceram no Tribunal. Mas venceram mesmo?

À primeira vista, a decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) pareceu uma vitória dos moradores do Cidade Jardim. O TJ-SP derrubou parte das alterações posteriores no zoneamento, mas preservou alvarás e pedidos de licenciamento protocolados durante a vigência das regras questionadas. E é justamente aí que começa o paradoxo.

Entre os projetos preservados estão os que preveem 19 torres no Cidade Jardim. Ou seja: a regra caiu, mas os empreendimentos que se beneficiaram dela poderão continuar avançando, dependendo da situação de cada licenciamento e dos efeitos definitivos da decisão.

Na prática, os moradores que lutaram contra a verticalização poderão continuar em suas casas, cercados por enormes edifícios, sem necessariamente ter o mesmo direito de negociar seus imóveis para empreendimentos semelhantes.

Cria-se uma situação difícil de explicar: alguns projetos mantêm o direito de verticalizar, enquanto os demais proprietários ficam submetidos às regras que voltaram a vigorar. Em outras palavras: se a regra caiu, quem ficou, na prática, com o direito de poder construir grandes ou pequenos edifícios? A RZK?

Por isso, dizer simplesmente que os moradores venceram no Tribunal pode esconder o principal efeito da decisão. Eles conseguiram derrubar parte das mudanças, mas as 19 torres poderão permanecer de pé. Afinal, se isso efetivamente ocorrer, quem realmente ganhou com essa decisão?

Uma construtora que passou a jogar nas grandes decisões de São Paulo e do Brasil

José Ricardo Lemos Rezek e a RZK deixaram de ser personagens conhecidos apenas pelo mercado imobiliário. A empresa passou a estar presente simultaneamente em decisões e projetos que envolvem Prefeitura, Câmara Municipal, Governo do Estado e Poder Judiciário. Não necessariamente como beneficiária de cada uma dessas instituições, mas porque seus empreendimentos dependem diretamente das regras e decisões produzidas por elas.

Esses talvez sejam os aspectos mais relevantes dessa história. Na Câmara Municipal, mudanças no zoneamento sobreviveram à derrubada de vetos. No Governo do Estado, o consórcio do qual a RZK participa conquistou uma PPP bilionária. Na Prefeitura, os projetos do Cidade Jardim percorrem o processo de licenciamento.

E, no Tribunal de Justiça, mesmo uma decisão que derrubou parte das alterações do zoneamento não significou automaticamente o fim dos empreendimentos. Agora, surge mais um capítulo nessa trajetória: os negócios relacionados ao empreendimento da RZK que envolveram recursos do Banco Master e, posteriormente, do BRB, de Brasília.

RZK aparece agora em uma operação financeira que passou pelo Banco Master, de Daniel Vorcaro, e pelo Banco de Brasília (BRB). A informação foi revelada pelo site Metrópoles. Segundo a reportagem, o Banco Masteremprestou R$ 278 milhões para a aquisição de terrenos destinados ao megaempreendimento Península Cidade Jardim, da RZK

O projeto, segundo números divulgados pela própria construtora ao mercado, tem Valor Geral de Vendas (VGV) estimado em impressionantes R$ 21,5 bilhões. É mais uma conexão financeira de peso em torno de um empreendimento que já provoca uma enorme disputa urbanística e judicial em São Paulo. 

Não se está afirmando que a RZK ou José Ricardo Lemos Rezek tenham participado das irregularidades investigadas no caso Master. A reportagem do Metrópoles, no entanto, revela esse dado objetivo e relevante: recursos do Banco Master financiaram a aquisição dos terrenos relacionados ao empreendimento da RZK no Cidade Jardim, e esses ativos posteriormente chegaram ao BRB.

Essas informações chamam ainda mais atenção quando colocadas ao lado do espaço conquistado recentemente pela RZK em São Paulo. Governo do Estado, um megaempreendimento no Cidade Jardim, mudanças de zoneamento, Banco Master e BRB são peças de histórias distintas, mas que ajudam a dimensionar o protagonismo alcançado pela empresa de José Ricardo Lemos Rezek. 

E, a cada nova peça revelada desse tabuleiro, aumenta também a necessidade de transparência sobre quem financia, quem investe e quem participa dos grandes projetos capazes de redesenhar São Paulo.

Enquanto isso, do outro lado dessa disputa estão moradores tentando preservar um bairro cuja paisagem poderá mudar para sempre.

A questão agora já não é apenas saber se haverá prédios no Cidade Jardim. É saber quantos serão construídos, qual será a altura deles, quais impactos produzirão e se os moradores terão de voltar novamente à Justiça para tentar impedir aquilo que acreditavam ter barrado quando conseguiram derrubar parte da mudança do zoneamento.

Porque a decisão judicial produziu uma vitória importante para o bairro. Mas, diante do avanço dos projetos, talvez a pergunta mais incômoda seja outra: quantas vitórias os moradores ainda precisarão conquistar para que uma delas efetivamente consiga impedir a construção das torres?

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