Os escândalos da Sefaz-SP tiraram ou não o sono de Samuel Kinoshita?

Há mais de um ano, o secretário Kinoshita vive cercado por escândalos de corrupção, prisões de auditores fiscais e uma Sefaz-SP que passou a frequentar, com assustadora regularidade, as páginas policiais da imprensa

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Uma informação que circulou nesta quarta-feira entre servidores da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo (Sefaz-SP) chamou a atenção pela peculiaridade. Segundo relatos recebidos de dentro da secretaria, o secretário Samuel Kinoshita teria permanecido em seu gabinete durante toda a madrugada, das 22 horas do dia 22 até a manhã desta quarta-feira, 23 de setembro. 

Policiais responsáveis por sua segurança também teriam permanecido no prédio da avenida Rangel Pestana. A informação não pôde ser comprovada oficialmente pela reportagem. Mas, se confirmada, deixa uma pergunta inevitável e até irônica: Kinoshita passou a noite trabalhando ou os escândalos que há mais de um ano sacodem a Fazenda paulista finalmente lhe tiraram o sono?

Motivos para insônia administrativa certamente não faltariam. Desde a Operação Ícaro, deflagrada em agosto de 2025 pelo Ministério Público de São Paulo, a Sefaz-SP atravessa uma sucessão de investigações, prisões, afastamentos e denúncias envolvendo auditores fiscais suspeitos de receber propina para facilitar ou liberar créditos tributários. 

A Secretaria responsável por fiscalizar contribuintes passou a ter alguns de seus próprios fiscais sob investigação. E o caso mais recente atingiu um andar particularmente elevado do edifício hierárquico: André Weiss, que chegou ao posto de Diretor-Geral Executivo da Administração Tributária (Deat), uma das posições mais importantes da estrutura fiscal paulista, acabou preso preventivamente.

A trajetória de Weiss dentro da Sefaz-SP também merece atenção. Ele foi promovido duas vezes em apenas sete meses durante o atual governo de Tarcísio de Freitas e, segundo denúncia do Ministério Público, teria recebido pagamentos ilícitos depois de assumir a chefia da fiscalização. 

As investigações apontam ainda sua ligação com Paulo Sérgio Siqueira do Prado, o PP, ex-delegado tributário do Butantã e personagem central das apurações sobre esquemas envolvendo ressarcimentos de ICMS. Segundo informações constantes das investigações, dinheiro teria circulado em caixas e mochilas, com entregas em restaurantes, cafés e estacionamentos de shoppings. 

Em um dos episódios investigados, R$ 4,3 milhões teriam sido entregues no estacionamento do Shopping Iguatemi. É uma quantidade de dinheiro suficiente para tirar o sono de qualquer secretário da Fazenda, principalmente quando os investigados ocuparam posições relevantes justamente na estrutura que ele comanda.

Há ainda uma questão administrativa que não pode ser ignorada. Weiss integrava a estrutura comandada pelo subsecretário da Receita Estadual, Marcelo Bergamasco, personagem que ganhou espaço na Sefaz-SP durante a gestão do ex-secretário Luiz Cláudio Rodrigues de Carvalho no governador de Márcio França, de abril de 2018 a janeiro de 2019.

Depois de São Paulo, Luiz Cláudio foi nomeado secretário da Fazenda do Rio de Janeiro e levou Bergamasco para sua equipe. Montagem fotográfica feita por IA

A sucessão de casos envolvendo servidores de alta patente torna inevitável perguntar até onde chegavam as relações de confiança, quem indicou quem, quem promoveu quem e, principalmente, quais mecanismos de controle funcionavam, ou deixaram de funcionar, enquanto os fatos agora investigados teriam ocorrido. 

Não sabemos, por enquanto, se Samuel Kinoshita trabalhou, cochilou ou simplesmente resolveu transformar seu gabinete em dormitório na madrugada de 22 para 23 de setembro. Isso cabe ao próprio secretário esclarecer. Mas uma coisa parece difícil contestar: depois de mais de um ano de operações, prisões, delações e suspeitas envolvendo integrantes do Fisco paulista, talvez dormir dentro da Secretaria seja mesmo uma experiência complicada. 

O problema maior, porém, não é saber onde dorme o secretário. É descobrir quem estava acordado para fiscalizar a Sefaz-SP enquanto tantos escândalos aconteciam debaixo da estrutura administrativa do governo de Tarcísio de Freitas, em São Paulo.

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