Há exatamente um ano, a Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo (Sefaz-SP) parece ter trocado as páginas de economia pelas páginas policiais. Desde a deflagração da Operação Ícaro, em agosto de 2025, a secretaria passou a conviver com uma sucessão de investigações, prisões, afastamentos, suspeitas de corrupção, pagamento de propinas e manipulação de procedimentos envolvendo créditos tributários.
O problema já não pode ser tratado simplesmente como a descoberta de meia dúzia de servidores que teriam se desviado de suas funções. Quando as investigações alcançam diferentes níveis da administração tributária e chegam a funcionários que ocuparam postos na própria cúpula da estrutura fazendária, surge uma pergunta inevitável: quem efetivamente estava comandando e fiscalizando a Secretaria da Fazenda durante todo esse período?
No início de setembro, o Ministério Público de São Paulo voltou à Sefaz-SP. Foram 47 alvos entre pessoas físicas e jurídicas. Entre os presos está André Weiss, que até maio deste ano ocupava o cargo de diretor-geral executivo da Administração Tributária. Simplesmente o terceiro posto mais importante da hierarquia da Fazenda paulista, abaixo apenas do subsecretário da Receita Estadual, Marcelo Bergamasco, e do secretário Samuel Kinoshita.
Segundo as investigações e a colaboração premiada do ex-delegado tributário Paulo Sérgio Siqueira Prado (PP), o advogado João André Buttini de Moraes teria repassado aproximadamente R$ 13,6 milhões em propinas entre 2021 e agosto de 2025 para interferir na tramitação de pedidos de ressarcimento. PP afirmou ter repassado cerca de R$ 4,5 milhões desse montante a André Weiss. O auditor fiscal Weiss foi promovido duas vezes, em sete meses, durante o governo de Tarcísio de Freitas, do Republicanos, por Kinoshita e Bergamasco.
As acusações ainda estão sendo investigadas e as responsabilidades individuais precisarão ser estabelecidas pela Justiça. Mas administrativamente existe uma questão que não depende do resultado final dos processos criminais: como uma estrutura dessa dimensão teria conseguido funcionar durante tanto tempo dentro de uma das áreas mais estratégicas do Governo de São Paulo?
Kinoshita e Bergamasco estavam onde?
Samuel Kinoshita é o secretário da Fazenda. Marcelo Bergamasco é o subsecretário da Receita Estadual. Portanto, não são personagens periféricos da estrutura administrativa. São justamente as autoridades que ocupam o topo da cadeia de comando sob a qual funcionava a máquina tributária atingida repetidamente pelas investigações. Não esquecendo que o terceiro, nessa escala hierárquica, era o auditor Weiss que foi preso.
Depois de um ano de escândalos, já não basta dizer que a Sefaz-SP está colaborando com o Ministério Público assim que os fatos são descobertos. A indagação que se faz é: onde estavam os controles internos antes da chegada do Ministério Público e da polícia?
Se havia pagamento de propinas, interferência na tramitação de créditos, tratamento privilegiado, circulação de dinheiro vivo e participação de servidores em diferentes níveis da administração tributária, por que os mecanismos internos da própria Fazenda não detectaram tudo isso antes?

Enquanto isso, Miami, Orlando, Washington, Milão e Portugal se transformaram numa extensão da Sefaz-SP
É justamente nesse ambiente que uma história comentada nos corredores do prédio da Sefaz-SP, na Avenida Rangel Pestana, no centro da cidade de São Paulo, chama a atenção pelo simbolismo.
Segundo relatos de funcionários ouvidos pela reportagem, enquanto a secretaria atravessa mais uma operação envolvendo integrantes e ex-integrantes de sua estrutura administrativa, Samuel Kinoshita estaria em Miami, nos Estados Unidos.
Entre os comentários internos, circula também a informação de que o secretário teria adquirido, no Brasil, um computador Apple de última geração para suas atividades administrativas, equipamento que, segundo esses relatos, não estaria conectado à rede da Sefaz-SP.
A informação sobre a compra do equipamento, sua origem, seu valor e a utilização de recursos públicos precisa ser oficialmente confirmada pelo secretário e pela Sefaz-SP. Caso o computador tenha sido efetivamente adquirido com dinheiro da secretaria, surge uma questão que merece esclarecimento: por que um equipamento pago com recursos públicos e destinado ao trabalho do titular da Fazenda paulista não estaria integrado à rede e aos sistemas de controle da própria Sefaz-SP?
É preciso esclarecer também se as normas internas permitem que um servidor público, ainda que ocupante do cargo máximo da secretaria, utilize individualmente um equipamento adquirido pelo Estado fora da rede corporativa e quais mecanismos de segurança, controle e auditoria são aplicados nesse caso.
Já a viagem aos Estados Unidos não seria propriamente uma novidade na trajetória do titular da Fazenda paulista desde o início do governo de Tarcísio de Freitas. Kinoshita já realizou outras viagens ao país, com registros de passagens por cidades como Washington e Orlando.
Marcelo Bergamasco também já protagonizou uma longa discussão envolvendo trabalho a distância no exterior. O subsecretário possui imóvel em Milão, onde sua família vive, e suas temporadas na Itália acabaram rendendo dentro da própria secretaria o apelido de “Milanês”.
A Sefaz-SP já viveu até uma situação ainda mais insólita envolvendo trabalho no exterior: uma servidora que estava em Lisboa deixou o cargo e o computador pertencente à Fazenda paulista acabou sendo enviado de Portugal para o Brasil em avião comercial, sem a documentação necessária, sendo apreendido pela Polícia Federal no Aeroporto de Guarulhos.
Isoladamente, viagens internacionais não constituem irregularidade. Ter apartamento no exterior também não. Comprar um computador de última geração da Apple, se confirmado e realizado regularmente, tampouco representa por si só qualquer ilícito. O problema é o contraste.
Enquanto a alta administração acumula viagens e temporadas internacionais, dentro da Fazenda paulista as operações policiais parecem ter se transformado em rotina.

Uma crise que já dura um ano e a responsabilidade do governador Tarcísio de Freitas
É neste ponto que a discussão deixa de ser exclusivamente tributária e passa a ser política. Samuel Kinoshita e Marcelo Bergamasco não comandam uma estrutura independente. Eles integram o Governo de São Paulo e estão subordinados politicamente ao governador Tarcísio de Freitas, do Republicanos.
Depois de um ano de operações, prisões, afastamentos e revelações envolvendo justamente a máquina responsável pela arrecadação e fiscalização tributária do maior estado do País, o governador precisa explicar se considera satisfatória a condução da Sefaz-SP.
A pergunta, portanto, já não é apenas quem recebeu propina, quem facilitou créditos ou quem será preso na próxima operação. A pergunta agora é muito mais simples: Afinal, quem está no comando da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo?


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