No último domingo, dia 9 de agosto, Fernando Haddad e Tarcísio de Freitas ficaram frente a frente no primeiro debate da eleição de 2026 para o governo de São Paulo. Durante quase duas horas, discutiram segurança, educação, privatizações, Cracolândia, Governo Lula, gestão estadual e outros temas que certamente estarão no centro da campanha.
O encontro ocorreu nos estúdios da Band, no bairro do Morumbi. Mas talvez a informação mais reveladora daquela noite não tenha saído da boca de nenhum dos dois candidatos. Quem ganhou o debate foi João Kleber, da RedeTV!. Não politicamente, evidentemente. Na guerra mais impiedosa da televisão: a disputa pelo controle remoto.
A audiência foi pífia e, em alguns momentos, deixou a Band em quinto lugar, bem perto da TV Cultura e da TV Gazeta, perdendo para a RedeTV! Na verdade, o problema não é a falta de interesse do eleitor pela política, mas o formato de televisão que envelheceu. Enquanto a CazéTV reinventou a transmissão esportiva, os debates eleitorais continuam presos ao cronômetro, à réplica e à tréplica.
No momento em que os dois principais candidatos disputavam diante das câmeras quem está mais preparado para governar o estado mais populoso e economicamente mais importante do país, a RedeTV! chegou a superar a Band na audiência. Dados divulgados após o programa registraram momentos em que João Kleber alcançou 0,8 ponto enquanto a Band marcava 0,7.
É uma derrota televisiva muito mais eloquente do que qualquer réplica ou tréplica.
Não há nada de errado com João Kleber, na RedeTV! Ele é apresentador, humorista e animador. Faz o programa que se propõe a fazer. O problema talvez esteja do outro lado do controle remoto. Ou, mais precisamente, dentro dos estúdios da Band onde a televisão brasileira continua produzindo debates eleitorais praticamente como fazia há mais de 40 anos.
O debate político ficou velho. A Band tem motivos para se orgulhar de sua história nos debates eleitorais brasileiros, que começou em 1982. A emissora foi pioneira e ajudou a transformar esses confrontos em parte importante do processo eleitoral e da própria história da televisão. Mas tradição não é salvo-conduto para a eternidade.
O telespectador mudou. A televisão mudou. A internet mudou. A política mudou. A maneira de consumir informação mudou radicalmente. E debate eleitoral na televisão, nem tanto. Continua o mesmo de 1982.
É a mesma liturgia: pergunta, resposta, réplica, tréplica, cronômetro, candidato interrompido porque acabou o tempo, sorteio de temas, direito de resposta e aquela inevitável sentença do mediador: “Seu tempo terminou, candidato”.
Trocam o cenário, os telões, as câmeras, a iluminação e os recursos gráficos. O produto continua essencialmente o mesmo. É a velha televisão vestida com roupa nova.
E os números de audiência deveriam provocar uma discussão dentro das próprias emissoras: será que o eleitor perdeu o interesse pela política ou a televisão perdeu a capacidade de apresentar política de uma maneira interessante?
Para que serve um debate hoje?
Durante décadas havia uma razão evidente para o eleitor passar duas ou três horas diante da televisão assistindo aos candidatos. Era uma das poucas oportunidades para conhecê-los. Essa escassez hoje, simplesmente, desapareceu.
Antes mesmo de Haddad e Tarcísio entrarem no estúdio da Band, qualquer eleitor minimamente interessado já poderia ter assistido a dezenas de vídeos dos dois. Entrevistas, discursos, podcasts, cortes, memes, declarações, coletivas, confrontos, respostas e ataques circulam diariamente pelas redes sociais.
O candidato não desaparece mais quando termina o horário eleitoral. Ele passou a morar agora no bolso do eleitor. Por esse motivo é que agora existe uma questão ainda mais incômoda: quanto um debate realmente consegue mudar o voto de alguém?
A resposta científica é bem menos espetacular do que a televisão talvez gostaria. Um estudo publicado em 2021 na Public Opinion Quarterly, da Oxford University Press, examinou dados da eleição presidencial brasileira de 2014.
Os pesquisadores encontraram efeito significativo dos debates sobre a possibilidade de mudança de candidato no primeiro turno. Mas, no segundo turno, quando a disputa ficou reduzida a Dilma Rousseff e Aécio Neves, assistir aos debates deixou de apresentar efeito significativo sobre a propensão do eleitor a trocar de candidato.
Portanto, seria incorreto afirmar simplesmente que debate não muda voto. Pode mudar. Mas o próprio estudo sobre o eleitorado brasileiro mostra que esse poder diminui quando a disputa fica polarizada entre dois nomes e as preferências estão mais consolidadas. Caso específico desta eleição entre Fernando Haddad e Tarcísio de Freitas.
Em outras palavras: o debate continua tendo importância democrática e jornalística, mas não possui, necessariamente, o poder quase mágico de transformar eleições como às vezes lhe é atribuído. Quem já prefere Haddad tende a encontrar razões para considerar Haddad vencedor. Quem já prefere Tarcísio tende a enxergar exatamente o contrário.
Por esses motivos, antes de discutir se o debate consegue mudar o voto do telespectador é preciso conseguir uma façanha aparentemente cada vez mais difícil. A de fazer o telespectador assistir ao debate. A audiência do domingo transforma essa questão numa provocação quase cruel.
Dois candidatos ao governo de São Paulo, uma grande emissora, como a Band, com estrutura de televisão, cenário especial, jornalistas, produtores, assessores, analistas, técnicos e semanas de divulgação.
Do outro lado, João Kleber, na RedeTV!, com todas as dificuldades que essa emissora enfrenta. E João Kleber acabou ganhando a preferência dos telespectadores. O controle remoto é uma urna particularmente impiedosa. Nela não existe voto obrigatório. Não gostou? Achou chato? É simples, muda-se de canal.
O futebol entendeu que o tempo mudou. A política ainda não entendeu e vive do passado

Talvez seja justamente aqui que a comparação com a CazéTV se torne inevitável. O futebol também carregava uma liturgia televisiva consolidada havia décadas. Narrador, comentarista, repórter de campo, linguagem solene, intervalos comerciais e uma forma praticamente imutável de contar uma partida.
Então chegou a CazéTV. Pode-se gostar ou não do estilo. Pode-se criticar excessos. Mas é difícil negar que houve disposição para romper com uma linguagem envelhecida.
A CazéTV apostou em informalidade, interação, humor e numa comunicação adaptada ao público digital. Em 2026, tornou-se a única operação brasileira com os direitos para transmitir os 104 jogos da Copa do Mundo e registrou audiências gigantescas na internet; durante o Mundial, chegou a superar 18 milhões de aparelhos conectados simultaneamente no YouTube em uma partida do Brasil.
O futebol percebeu que o mundo mudou. A política na televisão parece não ter recebido o aviso. O debate eleitoral continua preso aos púlpitos, cronômetros, blocos rígidos, perguntas previsíveis e respostas espremidas em um ou dois minutos.
É uma engrenagem tão burocratizada que, muitas vezes, o formato parece mais importante do que aquilo que os próprios candidatos têm a dizer. Trocam-se os candidatos. Troca-se a eleição. Troca-se o cenário. Mas o programa parece sempre o mesmo, como era há mais de 40 anos.


Deixe um comentário