Tarcísio ministro pode ter criado um problema bilionário para Tarcísio governador?

Há ironias políticas que precisam de muito esforço para serem explicadas. Outras praticamente se escrevem sozinhas

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Quando Tarcísio de Freitas era ministro da Infraestrutura do governo Jair Bolsonaro, entre janeiro de 2019 e março de 2022, sua pasta conduziu a modelagem e os estudos que incluíram o Aeroporto Campo de Marte na 7ª rodada de concessões aeroportuárias do Governo Federal.

Tarcísio deixou o ministério do governo Bolsonaro em março de 2022 para disputar o Governo de São Paulo. O leilão seria realizado alguns meses depois, em 18 de agosto, já sob a gestão de seu sucessor, Marcelo Sampaio.

Tarcísio não era mais ministro no dia em que o martelo bateu. Mas a política de concessões e a estruturação que levaram o Campo de Marte ao leilão foram desenvolvidas durante sua passagem pelo Ministério da Infraestrutura.

Quatro anos depois, o Tarcísio governador pode ter descoberto que algumas decisões do Tarcísio ministro viajaram no tempo. E aterrissaram próximas da praça Princesa Isabel, no centro da cidade de São Paulo.

Ali, no Campos Elíseos, está sendo projetado o novo Centro Administrativo do Governo de São Paulo, uma PPP de aproximadamente R$ 6 bilhões vencida pelo consórcio capitaneado pelo Grupo RZK, que é uma das principais vitrines urbanísticas da atual administração de Tarcísio de Freitas.

O problema é que o projeto do governador Tarcísio de Freitas, de 2026, pode ter encontrado no caminho justamente as consequências da modernização do Campo de Marte desenvolvida, em 2019, pelo ex-ministro Tarcísio de Freitas. É uma contradição política difícil de inventar.

A concessão do Campo de Marte não surgiu do nada em agosto de 2022. Sua modelagem e inclusão na 7ª rodada de concessões aeroportuárias ocorreram durante a gestão de Tarcísio de Freitas no Ministério da Infraestrutura. O objetivo era transferir à iniciativa privada a administração do aeroporto e criar condições para investimentos e modernização de sua infraestrutura.

Em março de 2022, Tarcísio deixou Brasília para disputar o Governo de São Paulo. E, em agosto daquele ano, o leilão foi realizado. O fundo XP Infra IV FI Participações em Infraestrutura, ligado à XP Asset, foi o único proponente e arrematou a concessão dos aeroportos Campo de Marte, em São Paulo, e Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, por R$ 141,4 milhões.

A concessão tem prazo de 30 anos e envolve compromissos de investimentos nos aeroportos. Até aí, tudo parecia fazer parte de uma política nacional de modernização da infraestrutura aeroportuária. Só que aeroporto modernizado tem uma característica elementar: precisa de espaço aéreo para funcionar.

O Campo de Marte não é um aeroporto qualquer. Inaugurado em 1920, foi o primeiro aeroporto de São Paulo e tornou-se uma das principais bases brasileiras da aviação geral e executiva, além de abrigar táxi aéreo, escolas de pilotagem e uma enorme estrutura de helicópteros. Veja: fotomontagem criada por IA, mas com a pista real de 1940.

A PAX Aeroportos, concessionária controlada pela XP Asset, passou a realizar investimentos para modernizar sua operação. Entre eles estão aproximadamente R$ 125 milhões destinados a intervenções em pistas e áreas de manobra relacionadas à implantação da navegação por instrumentos, prevista nas obrigações da concessão.

2026: começa a guerra dos prédios contra os jatinhos (fotomontagem por IA)

E aqui começa a parte da história que interessa diretamente ao mercado imobiliário paulistano.  Uma operação aeroportuária mais sofisticada não termina no muro do aeroporto. Ela precisa olhar para cima. As novas condicionantes relacionadas ao espaço aéreo do Campo de Marte colocaram frente a frente dois setores poderosos.

De um lado, a PAX Aeroportos e a necessidade de garantir condições operacionais e de segurança para o aeroporto. Do outro, Associação Brasileira de Incorporadoras (Abrainc) e Sindicato de Imóveis de São Paulo (Secovi-SP), representantes de um mercado imobiliário acostumado a olhar para o céu de São Paulo como espaço disponível para novos empreendimentos.

A disputa ganhou dimensão bilionária, já que esses gigantes do setor estimam que as restrições poderiam afetar cerca de 90% da produção imobiliária da capital e provocar impacto econômico de aproximadamente R$ 25 bilhões em dez anos. A possibilidade de judicialização já entrou na discussão.

De um lado, portanto, está um aeroporto concedido pelo Governo Federal e modernizado pela iniciativa privada. Do outro, incorporadoras, construtoras e proprietários de terrenos que temem perder potencial construtivo. No meio dessa guerra entre prédios e aviões apareceu um personagem inesperado. O próprio Governo do Estado.

É aqui que a história ganha uma ironia política particularmente desconfortável. O governo Tarcísio de Freitas está construindo em Campos Elíseos aquele que pretende transformar em um dos símbolos de sua administração: o novo Centro Administrativo do Governo de São Paulo.

O empreendimento deverá concentrar secretarias, órgãos estaduais, milhares de servidores e serviços públicos numa gigantesca operação de transformação urbana do centro da capital. A PPP gira em torno de R$ 6 bilhões. O projeto ficou com o consórcio vencedor integrado pela Grupo RZK e foi apresentado como peça central da revitalização da região.

Só que agora existe uma pergunta de alguns bilhões de reais: até que altura essas torres poderão efetivamente subir? Se as novas condicionantes aeronáuticas alcançarem os edifícios previstos para Campos Elíseos e impuserem limites inferiores aos considerados na modelagem original, o problema deixa de ser apenas arquitetônico.

O Grupo RZK poderá pagar a conta da contradição entre o Tarcísio ministro e o Tarcísio governador?

Antes de qualquer conclusão, uma cautela é indispensável. Não é possível afirmar, sem a análise técnica definitiva dos órgãos aeronáuticos sobre cada edifício, que o Centro Administrativo esteja inviabilizado ou que necessariamente terá de perder andares.

Mas é perfeitamente legítimo perguntar se o projeto originalmente contratado para execução do Grupo RZK permanece integralmente compatível com as novas condicionantes do espaço aéreo. Porque, se não permanecer, começa outra discussão.

Se edifícios projetados para alturas próximas de 60 metros tiverem de respeitar limites significativamente inferiores, onde a RZK colocará a área a ser construída e retirada dos pavimentos superiores? Prédios mais baixos terão de ficar mais largos? Será necessário alterar a implantação das torres? Caberá tudo no mesmo terreno? O cronograma será mantido?

Essas perguntas são ainda mais relevantes porque não estamos tratando de uma incorporação privada qualquer. É uma obra do Grupo RZK de R$ 6 bilhões. Por isso, antes de discutir prejuízo bilionário como fato consumado, o Governo de São Paulo deveria explicar se existe risco de prejuízo e qual seria sua dimensão.

Até porque R$ 6 bilhões não são detalhe de maquete. É muito dinheiro, suficiente para exigir transparência antes que o primeiro grande problema saia do papel. 

Talvez chamar isso de “tiro no pé” seja simplificar demais. Pode ser algo politicamente mais interessante: uma decisão de infraestrutura do Tarcísio ministro que agora apresenta a conta urbanística ao Tarcísio governador.

Enfim, o novo Centro Administrativo Campos Elíseos deveria colocar o Governo de São Paulo nas alturas. Agora, antes de subir, Tarcísio de Freitas e o consórcio do Grupo RZK terão de descobrir até onde a Aeronáutica permite chegar.

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