O PSB de Márcio França está mesmo na campanha de Haddad ou só cria um problema nacional para o PT?

Há partidos que apoiam um candidato. Outros fazem oposição. E existe o PSB de 2026, que parece ter encontrado uma terceira alternativa: dependendo do estado, fazer as duas coisas ao mesmo tempo

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Nacionalmente, o PSB ocupa a Vice-Presidência da República com Geraldo Alckmin e integra a aliança política de Luiz Inácio Lula da Silva. Em São Paulo, ocupa também a vice de Fernando Haddad, com Márcio França. Em Pernambuco, quer Lula de corpo e alma no palanque de João Campos.

Até aí, tudo perfeitamente compreensível. O problema começa quando se olha um pouco além das fotografias oficiais.

Em Pernambuco, Lula precisou jogar uma verdadeira partida de xadrez político. João Campos queria a presença do presidente para nacionalizar sua candidatura ao Governo do Estado e associá-la à enorme força eleitoral que Lula conserva entre os pernambucanos.

Lula foi. Subiu no palanque. Caminhou com João Campos e formalizou politicamente o apoio ao candidato do PSB. Mas havia uma peça incômoda no tabuleiro: Raquel Lyra, do PSD.

A governadora disputa diretamente contra João Campos, mas mantém relação institucional com o Governo Federal. A situação é tão delicada que integrantes do entorno de Lula chegaram a defender que o presidente não entrasse diretamente na campanha pernambucana no primeiro turno, justamente para preservar essa relação. 

Lula entrou. Mas entrou pisando em ovos. E ainda produziu uma cena politicamente deliciosa para os adversários de João Campos. Ao lado do candidato do PSB, Lula afirmou que as mulheres são maioria e defendeu que mulheres votem em mulheres para ampliar a representação feminina no Congresso.

Em Pernambuco, portanto, Lula precisa apoiar o PSB sem transformar Raquel Lyra numa inimiga. Mas essa é apenas uma pequena amostra da ginástica política exigida pelo aliado PSB na atual eleição de 2026.Em Minas, um socialista ajuda o adversário de Lula

Se Pernambuco exige equilíbrio, Minas Gerais exige explicação. O deputado estadual Noraldino Júnior é filiado ao PSB, o mesmo partido do vice-presidente Geraldo Alckmin. Só que Noraldino resolveu colocar dinheiro na campanha de um adversário de Lula.

O parlamentar mineiro destinou R$ 15 mil à candidatura presidencial de Augusto Cury, do Avante. Quando a informação foi divulgada pela Folha de S.Paulo, Noraldino aparecia como o maior doador individual da campanha de Cury, excluídos o próprio candidato e o partido. 

É uma situação politicamente curiosa. O PSB ocupa a Vice-Presidência com Lula, mas um deputado estadual do PSB, em Minas Gerais, ajuda financeiramente um candidato que disputa votos contra Lula.

Mas nada se compara a São Paulo. Em São Paulo, o PSB consegue estar dos dois lados. Fernando Haddad tem como candidato a vice Márcio França, um dos principais nomes nacionais do PSB, tendo sido presidente estadual do partido, cargo que passou para seu filho, Caio França.

Portanto, seria razoável imaginar que o PSB paulista, fortemente ligado politicamente a Márcio França e atualmente presidido por seu filho, Caio França, estivesse mobilizado para derrotar Tarcísio de Freitas. Mas seria mesmo?

O prefeito de Rio Grande da Serra, Akira Auriani, é do PSB. O mesmo PSB de Márcio França. Akira, entretanto, decidiu apoiar Tarcísio de Freitas. E não se trata de apoio tímido, clandestino ou constrangido.

Akira participou de encontros com prefeitos do Grande ABC destinados a organizar ações eleitorais para fortalecer a candidatura de Tarcísio de Freitas justamente contra Fernando Haddad. Em uma dessas reuniões, seis dos sete prefeitos da região discutiram estratégias e um grande ato de campanha do governador.

Ou seja: enquanto Márcio França aparece na cédula como vice de Haddad, um prefeito do partido de Márcio França ajuda a organizar a campanha do adversário. Akira ainda apresentou uma explicação que torna a história mais interessante.

Disse ter boa relação com Tarcísio e afirmou que não havia sido procurado pela equipe de Haddad. Segundo ele, nem mesmo o próprio Márcio França havia feito esse movimento de aproximação.

É difícil cobrar fidelidade de um prefeito que diz não ter sido procurado nem pelo candidato a governador nem pelo principal nome de seu próprio partido na chapa. E onde está Márcio França?

Essa talvez seja a pergunta mais interessante da campanha paulista. Márcio França é vice de Fernando Haddad. Mas sua presença política na campanha parece muito mais discreta do que o tamanho do cargo que ocupa na chapa. E existe uma coincidência histórica curiosa.

Em 2022, a candidata a vice de Haddad era Lúcia França, mulher de Márcio França. Agora, quatro anos depois, o próprio Márcio ocupa a vaga. Mudou só o França. Mas permanece a pergunta sobre quanto o PSB efetivamente acrescenta à candidatura petista.

Ao que parece a família de Márcio França perdeu o comando do PSB em São Paulo. Veja o caso emblemático do Anderson Pomini, presidente da Autoridade Portuária de Santos, que tem uma relação política e profissional conhecida com Márcio França.

Em 2021, França chegou a integrar a banca de advocacia de Pomini. Posteriormente, quando comandava o Ministério de Portos e Aeroportos, foi sob a gestão de França que Pomini chegou à presidência do Porto de Santos. E onde apareceu Pomini recentemente?

Em um jantar organizado pelo deputado federal Marcos Pereira, presidente nacional do Republicanos e politicamente ligado ao bispo Edir Macedo e à Igreja Universal, justamente o partido de Tarcísio de Freitas.

O encontro reuniu políticos e aliados do campo político do governador paulista.  Evidentemente, comparecer a um jantar não significa declarar apoio eleitoral, muito menos mudar de lado político. Mas política também é feita de sinais.

E, numa campanha em que Márcio França é candidato a vice justamente contra Tarcísio, a fotografia ganha significado. Principalmente quando colocada ao lado do caso Akira. Um prefeito do PSB que trabalha pela campanha de Tarcísio de Freitas.

O vice Márcio França que faz campanha e recebe quarentena remunerada (fotomontagem de AI)

Há ainda outro detalhe capaz de tornar a história mais peculiar. França deixou o ministério, mas o salário não conseguiu se despedir dele.

Márcio França pediu exoneração como Ministro da Microempresa, mas posteriormente pediu a Comissão de Ética Pública da Presidência uma quarentena remunerada de seis meses para não prestar consultoria ao Sindicato da Micro e Pequena Indústria de São Paulo (Simpi).

Segundo informações divulgadas em julho, França solicitou o pagamento depois do parecer favorável da Comissão de Ética, e o primeiro pagamento estava previsto para agosto, referente à folha de julho.

Márcio França deixa o ministério, torna-se candidato a vice-governador, participa de uma campanha eleitoral e pode receber a remuneração compensatória prevista para sua quarentena.

Afinal, o PSB de Márcio França está com Haddad? O PSB está realmente ajudando Haddad em sua campanha ou o PT está carregando um aliado que mantém um pé em cada palanque?

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