Durante décadas, o torcedor brasileiro aprendeu que futebol se resolvia dentro das quatro linhas. Hoje, para entender quem realmente disputa poder no futebol nacional, talvez seja mais útil olhar para Brasília, para a Faria Lima ou para o Jardim Botânico, do que para o Maracanã, o Morumbi, o Mineirão, ou qualquer outro estádio de futebol.
De um lado aparecem sobrenomes que dispensam apresentações na política e no Judiciário brasileiros: Mendes e Sarney. Do outro, instituições que representam alguns dos maiores interesses financeiros do país: XP Investimentos e BTG Pactual. E no centro a Globo, um dos maiores conglomerados de comunicação da América Latina.
Administrando esse tabuleiro bilionário está a Confederação Brasileira de Futebol, a CBF, responsável pelo esporte que movimenta paixões, audiências e, principalmente, bilhões de reais.
Não significa dizer que Gilmar Mendes ou José Sarney comandem a CBF. Mas é impossível ignorar que filhos de duas das famílias mais influentes do país ocupam ou conquistaram espaços relevantes justamente dentro da estrutura de poder do futebol brasileiro.

O sobrenome Sarney está na CBF há mais de duas décadas
Fernando Sarney, filho do ex-presidente da República José Sarney, não é propriamente um recém-chegado aos corredores da CBF. Muito pelo contrário. Ele ocupa uma das vice-presidências da entidade desde 2004 e tornou-se um dos dirigentes mais longevos da confederação.
Em maio de 2025, quando a Justiça afastou Ednaldo Rodrigues da presidência da CBF, Fernando Sarney foi escolhido judicialmente como interventor, com a missão de convocar novas eleições.
Ou seja: quando a maior entidade do futebol brasileiro atravessou uma de suas mais graves crises institucionais, o filho do ex-presidente José Sarney estava exatamente no lugar reservado para assumir temporariamente o comando do futebol brasileiro.
Pode ser absolutamente legal e estatutário. Mas politicamente é uma fotografia que merece ser observada. O sobrenome Sarney, que atravessou décadas da República brasileira, também atravessou os portões da CBF, no Rio de Janeiro, e está lá há mais de vinte anos.

Agora chegou o sobrenome Mendes
Mais recente e talvez ainda mais impressionante, é a ascensão de Francisco Schertel Mendes, filho do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes. Formalmente, Francisco ocupa a vice-presidência da Federação Mato-Grossense de Futebol.
O cargo lhe assegura participação na assembleia da CBF, com direito a voto. Também é o único brasileiro atualmente integrante da Comissão Disciplinar da Fifa (aquela comissão que suspendeu, a pedido do presidente Donald Trump, o cartão vermelho do jogador dos Estados Unidos, Folarin Balogun). A própria CBFregistra oficialmente sua presença nesse colegiado internacional.
Reportagens recentes do UOL e da Folha de S.Paulo descrevem Francisco Mendes como personagem de enorme influência nos bastidores da atual CBF e como um dos principais articuladores do grupo que sustenta discussões estratégicas da entidade. A Folha chegou a apontá-lo como integrante do grupo que atualmente “dá as cartas” na confederação.
Há ainda outra ligação objetiva. Francisco é diretor-geral do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), instituição fundada por Gilmar Mendes e que mantém parceria com a CBF Academy, braço educacional da confederação. Segundo a Folha, o contrato prevê que o IDP cuide da área acadêmica e fique com 84% da receita dessa parceria.
Portanto, não é necessário criar nenhuma teoria conspiratória. Os fatos, sozinhos, já são suficientemente interessantes. É muita coincidência de sobrenomes importantes circulando pelo mesmo gramado.
De um lado, Fernando Sarney, filho de José Sarney, vice-presidente da CBF há mais de duas décadas e ex-interventor da entidade.
De outro, Francisco Mendes, filho de Gilmar Mendes, vice-presidente de uma federação estadual, integrante da Comissão Disciplinar da Fifa, dirigente do IDP parceiro da CBF Academy e apontado por reportagens como um dos homens mais influentes da atual estrutura de poder da CBF.
Nesse gramado a substituição é clara: quando sai Brasília, entra a Faria Lima

Se a disputa política e institucional da CBF já seria suficiente para produzir uma longa artigo, existe outra batalha ainda maior acontecendo paralelamente. A batalha pelo dinheiro. E nessa disputa, existem dois blocos para negociar direitos comerciais e de transmissão.
De um lado surgiu a Libra. Do outro, a Liga Forte União. A divisão nunca foi apenas esportiva. Era e continua sendo uma disputa por bilhões. E foi nesse gramado que entraram XP Investimentos, BTG Pactual, fundos internacionais e investidores interessados em transformar os direitos futuros do futebol brasileiro em ativos financeiros.
A XP teve participação direta na estruturação financeira do bloco que originou a Liga Forte União (LFU). O negócio posteriormente alcançou outra dimensão. Clubes ligados à Liga Forte Futebol e ao Grupo União, hoje LFU, venderam 20% de parcelas de seus direitos comerciais por 50 anos, entre 2025 e 2075, em uma operação de aproximadamente R$ 2,6 bilhões. Repito, 50 anos.
E onde entra o BTG Pactual? Historicamente, no outro lado. Enquanto a XPtrabalhava na estruturação financeira da Liga Forte, o BTG Pactual participou da construção financeira da Libra.

Em 2022, foi por meio do trabalho do BTG Pactual que chegou à Libra uma proposta do Mubadala Capital, dos Emirados Árabes Unidos, para investir na exploração comercial da futura liga.
Durante algum tempo, portanto, o mapa parecia bastante simples: Libra de um lado, com BTG e Liga Forte do outro, com XP. Só que o futebol brasileiro conseguiu transformar até essa divisão em algo mais complicado.
Portanto, hoje seria simplista dizer apenas que existe uma guerra “BTG contra XP”. Existe algo maior. Há uma corrida pela arquitetura financeira do futuro futebol brasileiro. E agora querem juntar todo mundo. CBF, clubes e dirigentes voltaram a discutir a formação de uma liga nacional unificada.
Essa nova ideia de unificação, acrescenta uma terceira camada de poder ao artigo: além da influência política (famílias Sarney e Mendes) em torno da CBF e da disputa financeira/comercial entre BTG Pactual e XP, entra a questão dos direitos de transmissão e a Globo.

E a Globo, vai entrar nesse jogo para ganhar?
A TV Globo é um personagem que não pode ficar escondido nessa disputa. Durante décadas, a emissora ocupou posição dominante na negociação e exploração dos direitos de transmissão do futebol brasileiro, construindo uma relação comercial direta e poderosa com os principais clubes do País.
O predomínio comercial da Globo sobre as transmissões do futebol brasileiro, especialmente do Campeonato Brasileiro, começou 1987, om a criação do Clube dos 13. Há quase quatro décadas, a Globo ocupa posição central e praticamente hegemônica, na exploração comercial das transmissões do futebol brasileiro.”
O cenário começou a mudar com a fragmentação dos direitos, o surgimento das ligas e a entrada de novos grupos interessados nesse mercado bilionário. É justamente por isso que qualquer movimento destinado a devolver à CBF um papel central na organização comercial do futebol brasileiro merece ser observado também pelo ângulo da televisão.
Se a Confederação passar a concentrar, por meio de uma única liga, poderes que hoje estão distribuídos entre clubes, ligas e diferentes grupos comerciais, quem efetivamente ganhará força para negociar os direitos de transmissão?
A pergunta torna-se ainda mais relevante diante das articulações políticas que cercam atualmente a CBF, com Fernando Sarney ocupando há anos posição de destaque na entidade e Francisco Schertel Mendes, filho do ministro Gilmar Mendes, aparecendo no tabuleiro comercial ligado à XP Investimentos.
Porque, no final, talvez a disputa seja muito maior do que simplesmente decidir quem comandará uma liga. Está em jogo quem terá poder para negociar um dos produtos mais valiosos da televisão brasileira: o Campeonato Brasileiro. E, quando política, bancos, CBF e direitos de transmissão aparecem no mesmo tabuleiro, acreditar que estamos discutindo apenas futebol seria, no mínimo, uma enorme ingenuidade.
Porque talvez a melhor síntese do futebol brasileiro de 2026 seja justamente esta: A bola continua sendo disputada dentro do campo. Mas o poder, cada vez mais, é concorrido fora dele, está entre Brasília, a CBF, a Faria Lima e a TV Globo.


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