A Operação Poço de Lobato, deflagrada com estardalhaço pelo governo Tarcísio de Freitas, parece dizer mais sobre o apetite midiático do Palácio dos Bandeirantes do que sobre qualquer avanço real no combate à sonegação de combustíveis em São Paulo.
Um ano antes, policiais do 10º Distrito Policial, do bairro da Penha, zona Leste da cidade de São Paulo, haviam cumprido mandados de busca e apreensão contra os mesmos alvos, as mesmas empresas e o mesmo esquema de evasão fiscal que hoje se tenta vender como novidade histórica. Sem nome, sem coletiva glamurizada, sem luzes, sem palco. Apenas investigação.
Desta vez, porém, a prioridade não era apenas investigar: era mostrar. Na sala de imprensa montada para o anúncio da operação, havia mais autoridades, assessores e porta-vozes do que policiais envolvidos na investigação de 2024 da zona Leste. O governo transformou a repressão tributária em peça de marketing político, com o governador à frente de um enredo que, ao contrário do que sugeria o roteiro oficial, não começou ali.
A operação da Penha — realizada sem pirotecnia — já mirava o Grupo Fit, antigo Refit, e seu controlador, acusado há anos de sonegar valores bilionários de ICMS no eixo São Paulo–Rio. Documentos do próprio Poder Judiciário mostram que a juíza da 2ª Vara de Crimes Tributários autorizou na ocasião mandados de busca em empresas diretamente ligadas ao conglomerado investigado. Tudo isso sem coletiva em palco iluminado, sem aparato institucional coreografado e sem a presença do governador posando como protagonista de uma ofensiva inédita.
Agora, com a versão 2025 rebatizada de Poço de Lobato, o governo escala mais personagens para a narrativa do que o número de policiais que, de fato, investigaram o caso na operação passada. A contradição é gritante: se os alvos são os mesmos, se o esquema é o mesmo, se a sonegação é a mesma — ou pior, se aumentou — o que exatamente justifica o show pirotécnico? O governo não responde. Talvez porque a resposta seja simples demais. É apenas política?
Instituto do Combustível Legal – ICL – como porta voz da Operação Poço Lobato

Outro dado que evidencia o jogo de cena é a súbita presença do Instituto Combustível Legal – ICL. No ano passado, a entidade se limitou a assinar notas conjuntas ao lado de outras instituições. Nada além disso. Isso só depois de serem feitas várias solicitações, deste blog, para um posicionamento oficial.
Neste ano, porém, o ICL ocupou holofotes, multiplicou entrevistas e virou fonte principal de telejornais. Isso apesar de ser acusado pela Refit de representar interesses de um cartel de distribuidoras — acusação que o governo não se deu ao trabalho de comentar, mas que, pelo menos, deveria despertar cautela antes de transformar a entidade em porta-voz privilegiado.
Entre a operação silenciosa de 2024 e o espetáculo de 2025, várias perguntas permanecem engasgadas, à espera de um posicionamento oficial do governo do Estado de São Paulo. Há mais de uma década, a Secretaria Estadual da Fazenda (SEFAZ-SP) convive com o mesmo volume bilionário de evasão.
O que mudou, além da estratégia de comunicação do governo Tarcísio de Freitas?
A sonegação no setor diminuiu nesses últimos anos?
Houve responsabilização de auditores fiscais, servidores ou gestores por incompetência ou corrupção na fiscalização da SEFAZ-SP?
O que efetivamente a SEFAZ-SP fez, durante todos esses anos, para reduzir a sonegação?
Por que os auditores fiscais deixaram chegar a esse número bilionário de impostos não recolhidos?
Infelizmente, nada disso foi apresentado na coletiva de imprensa repleta de figurões do governo de São Paulo. Não há um número, uma medida concreta, um ato administrativo que sustente a narrativa de avanço institucional, para melhorar a fiscalização ou reduzir a sonegação.
A única mudança palpável é o aumento da coreografia. Os holofotes cresceram; o problema, não. O governo aposta em luzes, drones, coletivas superlotadas e nomes grandiosos para dar verniz de eficiência ao que deveria ser política pública séria — e não peça de propaganda.
A Operação Poço de Lobato poderá até gerar frutos jurídicos, mas sua estreia mostra que, no governo Tarcísio, o combate à sonegação virou palco. E, enquanto a política se apresenta como espetáculo, a arrecadação segue sangrando, a fiscalização continua falha e os mesmos grupos econômicos permanecem explorando brechas que o Estado insiste em não fechar.


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