Se ainda havia quem duvidasse de que a política brasileira é, de fato, uma pizza, o Ministério do Trabalho resolveu colocar o manjericão por cima e empurrá-la direto para o forno. Ao mesmo tempo, parece ter decretado que emprego não se resolve com políticas públicas — resolve-se com fermento.
O secretário-executivo da pasta, Francisco Macena da Silva, braço direito do ministro Luiz Marinho, assinou nesta quinta-feira (28/8) uma portaria autorizando o servidor Jackson da Silva Ázara, superintendente regional do Trabalho e Emprego do Distrito Federal, a embarcar para Nápoles, na Itália. Missão oficial: aprender a fazer a “Verdadeira Pizza Napoletana”.
Isso mesmo: missão técnica. Afinal, se o Brasil precisa de algo urgente, não é reduzir a informalidade ou melhorar o salário-mínimo — é garantir que a mozzarella de búfala seja servida no ponto certo.
O detalhe saboroso é que Jackson poderia ter economizado o passaporte. Bastava percorrer algumas ruas de São Paulo, guiado pelo ranking gastronômico da Folha de S.Paulo, que destacou as melhores pizzarias da cidade, reconhecidas mundialmente como referências na pizza napolitana.
A Leggera, no Jardim Paulista; a Bráz, em Moema; e a 1.900, nascida na Vila Mariana, fariam qualquer mestre napolitano se emocionar. Mas, claro, servidor brasileiro não se contenta com qualquer bairro de São Paulo: precisa do glamour da Piazza del Gesù Nuovo, no coração de Nápoles, na Itália
Cursos e Livros ensinam como preparar a verdadeira Pizza Napolitana
E não é por falta de curso, tampouco. Em setembro, a Escola da Pizza, comandada pelo professor Guilherme Branzani, abre turma. O chef Hassin oferece aulas o mês inteiro, com preços acessíveis e ensino em português. Mas convenhamos: não rende a mesma postagem no Instagram. Segundo a cultura digital, não é instagramável. É difícil impressionar colegas com um “aperfeiçoamento técnico” no Bexiga. Bem mais charmoso é o check-in direto da Itália.
Se a ideia fosse algo ainda mais econômico, há opções. Na Amazon, o Manual da Vera Pizza Napoletana sai por R$ 39 — menos que uma fatia de pizza em euro. Outro título, Alla Napolitana, pode ser encontrado por R$ 199 na Estante Virtual. Mas livros não garantem diária em hotel nem milhas acumuladas no cartão.
Como estamos no Brasil, a lógica nunca é o caminho mais curto. É sempre preciso atravessar o Atlântico para justificar um “aperfeiçoamento” que poderia ser resolvido com uma marguerita na Vila Madalena, por exemplo. Quando existe uma solução simples, o governo invariavelmente escolhe a mais absurda — e ainda carimba com dinheiro público.
No fim das contas, a portaria não traz nenhuma surpresa. Apenas oficializa, em alto e bom som, o bordão que todo brasileiro já conhece: aqui, o serviço público acaba em pizza. Literalmente.
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