A história recente do setor de combustíveis no Brasil mostra que operações fiscais e policiais não produzem apenas efeitos jurídicos. Produzem, sobretudo, vencedores e perdedores econômicos. O caso da Refinaria de Manguinhos(Refit), tornou isso explícito — e agora lança uma sombra inquietante sobre o que ocorre com a Gulf Oil no país.
Reportagem do Diário do Poder revelou que a ofensiva da Receita Federal contra a Refit, apresentada como mera cobrança fiscal, teve efeitos econômicos claros e mensuráveis. Em resumo: “Ao estrangular um dos últimos players independentes do refino nacional, o Estado reorganizou o mercado e reduziu concorrência. Quem estava posicionado do outro lado da mesa colheu os frutos”, enfatizou o site jornalístico.
Antes mesmo da escalada contra a Refit, o BTG Pactual e a gestora Perfin haviam injetado R$ 6,5 bilhões na Cosan, grupo diretamente sensível à eliminação de competidores no setor de combustíveis. Entre os principais acionistas da Cosan está Rubens Ometto.
Com a perda abrupta de capacidade competitiva da Refit, as ações da Cosan se valorizaram relata o Diário do Poder. O ganho estimado: cerca de R$ 520 milhões. Não por eficiência, inovação ou expansão produtiva, mas pela retirada forçada de um concorrente acusado de sonegar mais de R$ 20 bilhões.
O Diário do Poder foi ainda mais direto ao ponto: não se trata de alegar conspiração, mas de identificar consequências. Quando o Estado atua de forma seletiva em um mercado concentrado, escolhe vencedores. No caso da Refit, a política pública produziu concentração e premiou investidores financeiros já posicionados.
É exatamente esse padrão que agora começa a ser apontado nos bastidores do mercado em relação à Gulf Oil

A operação brasileira da Gulf passou a enfrentar incertezas severas a partir do envolvimento de seu parceiro comercial, o Grupo Refit, em investigações por fraude fiscal bilionária e lavagem de dinheiro, no âmbito das operações Carbono Oculto e Poço Lobato. A Refit teve atividades interditadas pela Agência Nacional do Petróleo (ANP), sofreu bloqueios judiciais e perdeu capacidade operacional, afetando cadeias logísticas associadas.
Foi justamente nesse contexto que o Blog do Luchetti noticiou, em primeira mão, que a Refit, sob a gestão de Ricardo Magro, havia firmado parceria com a Gulf para a distribuição de combustíveis e lubrificantes no Brasil. A associação teria como objetivo, segundo o blog, ampliar a presença da marca no varejo e fortalecer a rede de postos ligada ao Grupo Fit, que já atuava no setor.
Nem a Refit, nem a Gulf desmentiram publicamente a existência dessa parceria comercial anunciada pelo blog. Ainda assim, segundo declarações públicas de representantes da Refit e de seu principal executivo, parte da ofensiva enfrentada agora pela empresa teria sido alimentada por interesses concorrenciais travestidos de denúncias técnicas. Nesse contexto, o nome do Instituto Combustível Legal (ICL) aparece com frequência como articulador de informações levadas a órgãos de persecução, o que teria contribuído para confundir parceria comercial com controle societário.
O efeito mais controverso ocorreu quando a fábrica de lubrificantes da Gulf,pertencente a um grupo empresarial indiano controlador internacional da marca — e fora do patrimônio da Refit — acabou incluída em medidas judiciais, com bloqueio de ativos e restrições operacionais. O impacto foi imediato: paralisação, insegurança jurídica e, na prática, o rompimento da relação operacional entre a Gulf e a Refit.

No caso da Gulf, uma marca global que teria investido pesado em produção local, ativos industriais e expansão comercial, o que poderá acontecer a partir desse cenário? A Gulf estaria operando sob insegurança jurídica prolongada, associada a um parceiro sob investigação, mesmo quando as estruturas societárias não se confundem?
Nesse ambiente onde há suspeitas de que denúncias técnicas, relatórios e informações levadas a órgãos de controle por entidades como o Instituto Combustível Legal (ICL) poderiam funcionar, na prática, como instrumentos de pressão concorrencial, ainda que revestidos de discurso institucional?
Diante disso, a questão central deixa de ser apenas a legitimidade das investigações e passa a ser outra: quem se beneficia economicamente de seus efeitos colaterais?
O risco, agora, não seria apenas a saída eventual da Gulf do Brasil, mas a consolidação de um padrão. Um padrão em que empresas independentes ou estrangeiras, ao desafiar a estrutura dominante do mercado de combustíveis, passam a enfrentar um ambiente hostil, enquanto concorrentes consolidados — ligados a grandes grupos financeiros e industriais — seguem blindados e fortalecidos.


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