Corrupção na Fazenda paulista desafia o governador Tarcísio: investigar ou ser cúmplice pela omissão?

Está na hora de Tarcísio de Freitas compreender, sem mais demora, que São Paulo não se sustenta com remendos: São Paulo exige coragem política de verdade.

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O governador Tarcísio de Freitas parece não perceber que, se nada fizer para combater os desmandos na Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo (Sefaz-SP), será lembrado como o governante que assistiu passivamente ao maior escândalo de extorsão fiscal da história paulista.

Desde 12 de agosto, quando vieram à tona as prisões do empresário Sidney Oliveira, dono da Ultrafarma, e de Mário Otávio Gomes, diretor do grupo Fast Shop, na Operação Ícaro — conduzida pelo Ministério Público e pela Polícia Militar —, as entranhas da corrupção ficaram expostas.

No centro do esquema, segundo a investigação, agia o auditor fiscal Artur Gomes da Silva Neto, acusado de liderar uma consultoria paralela que extorquia contribuintes em cifras bilionárias, com a conivência de colegas e, conforme relatos de bastidores, sob a sombra da complacência de altos escalões da Sefaz-SP.

O cinismo do sistema se revela em detalhes que precisam ser apurados com rigor. O Ministério Público e a Polícia devem investigar os comentários que circulam nos corredores da Secretaria: de que, dias antes de sua prisão, o auditor Artur Gomes teria participado de uma reunião em restaurante com dirigentes da Fazenda para comemorar o Acordo de Não Persecução Penal (ANPP), de R$ 30 milhões, firmado entre a Ultrafarma e o Ministério Público. Valor considerado irrisório diante da sonegação bilionária atribuída à rede de produtos farmacêuticos.

Esse suposto encontro, cuja veracidade precisa ser devidamente investigada, teria contado com a presença de Marcelo Bergamasco, André Weiss e Alexandre Salustiano Lira. Se confirmado, poderia ter funcionado como senha para a continuidade dos negócios ilícitos. “Está tudo amarrado e seguro”, teria dito um dos presentes.

A bem da verdade, só existe a extorsão e a sonegação na Sefaz-SP porque a própria fiscalização, em vez de coibir, muitas vezes participa ou finge não ver. Os mecanismos para combater o problema existem: basta que um auditor comunique o subsecretário da Receita Estadual, Marcelo Bergamasco, ou o secretário da Fazenda, Samuel Kinoshita, para que a inscrição estadual de um sonegador seja suspensa. Mas isso não acontece. 

É inacreditável o que acontece no governo de Tarcísio de Freitas. Todo o poder da receita estadual está concentrado na sede do fisco paulista, na avenida Rangel Pestana, centro da cidade e o resultado é o crescimento exponencial da sonegação e, agora da extorsão também em São Paulo. Enquanto os desmandos crescem a imagem da administração pública se deteriora com medidas, portarias e decretos paliativos.

Após a deflagração da operação e a repercussão negativa, a reação do comando da Sefaz-SP foi imediata, mas oportunista. Em 14/08/2025, foi editada a Portaria DEAT nº 07, criando um grupo de trabalho para “revisar processos de ressarcimento do ICMS-ST”. O ato soa mais como uma tentativa de jogar a responsabilidade em apenas oito auditores, quando o problema é estrutural e atravessa toda a Receita Estadual. Como acreditar que, de repente, aqueles que sempre conviveram com falhas e omissões seriam capazes de corrigir o sistema?

Poucos dias depois, em 18/08/2025, veio a Portaria SRE nº 45, assinada por Marcelo Bergamasco. O texto revoga a possibilidade de transferir créditos de substituição tributária para empresas de outros setores, restringindo a compensação apenas ao mesmo titular. Na prática, trata-se de uma medida que sufoca contribuintes honestos, reduz a liquidez de seus créditos e cria ainda mais insegurança jurídica — ao invés de atacar os grandes fraudadores.

Por fim, em 22/08/2025, o secretário Samuel Kinoshita baixou nova portaria instaurando processos administrativos disciplinares contra diversos fiscais. A medida, embora correta em tese, não passa de um gesto político para demonstrar reação, quando o que se espera é investigação séria, afastamento imediato de suspeitos e total transparência sobre a extensão do esquema.

Essas portarias não atacam a raiz do problema: o conluio entre empresários e agentes públicos que transformou a Sefaz-SP em um terreno fértil para a sonegação e a extorsão. Pelo contrário, punem contribuintes regulares e criam mais burocracia, enquanto os verdadeiros operadores do esquema permanecem próximos ao poder.

Diante desse quadro, resta ao governador Tarcísio de Freitas uma escolha histórica: ou enfrenta de forma radical e transparente a podridão instalada na Fazenda paulista, com exonerações, investigações independentes e reestruturação profunda, ou ficará marcado como o governador que fechou os olhos diante do maior escândalo de corrupção fiscal do estado.

Comentários

  1. Avatar de SUELI SILVA DE ALMEIDA
    SUELI SILVA DE ALMEIDA

    Uma vergonha. Não me admira pois está no mesmo caminho dos desmandos do governo Bolsonaro.
    Nem o Brasil e nem São Paulo merecem um político como Tarcísio Freitas.

    1. Avatar de Alberto Luchetti
      Alberto Luchetti

      E o pior é que a extortsão e a sonegação continua cada vez mais. Nada é feito para acabar com essa barbaridade.

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