Com o PSB de Márcio França, Haddad e o PT precisam de adversários?

O PSB paulista parece ter encontrado uma fórmula eleitoral bastante original: disputar a eleição com Fernando Haddad do PT e, ao mesmo tempo, ajudar Tarcísio de Freitas do Republicanos

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É uma espécie de coligação consigo mesmo, em que uma parte do Partido Socialista Brasileiro (PSB) pede votos para derrotar o governador Tarcísio de Freitas do Republicanos e outra parece trabalhar para reelegê-lo governador de São Paulo. O PSB está na mesma campanha que Haddad?

No centro dessa engenharia política está Márcio França, vice de Fernando Haddad (PT) na disputa pelo Governo de São Paulo. França deixou o Ministério da Microempresa para entrar na campanha eleitoral, mas conseguiu uma situação que certamente despertaria a inveja de muito trabalhador brasileiro: fazer política sem precisar abrir mão da remuneração correspondente ao cargo que deixou.

Depois de sair do governo Lula, França consultou a Comissão de Ética Pública sobre a possibilidade de trabalhar como consultor do Sindicato da Micro e Pequena Indústria de São Paulo (Simpi), presidido há anos, pelo mesmo e único presidente Joseph Couri, praticamente o dono do sindicato.

A Comissão estabeleceu uma quarentena remunerada de seis meses. Segundo informações divulgadas pelo próprio governo, França solicitou o pagamento da remuneração compensatória.

Ou seja: o homem que comandava o ministério das microempresas e que ganhou de seus críticos o apelido de “Micro Ministro” deixou de ser ministro, virou candidato a vice-governador, passou a fazer campanha eleitoral, mas continuou com uma remuneração bancada pelos cofres públicos por causa da quarentena.

Politicamente, é uma situação curiosa: França deixou o ministério, mas o salário não conseguiu se despedir dele. Tudo isso para ajudar Fernando Haddad a derrotar Tarcísio de Freitas.

Pelo menos essa seria a teoria. Porque, quando começamos a observar o PSBpaulista na prática, a história fica consideravelmente mais divertida.

O prefeito de Rio Grande da Serra, Akira Auriani, é do PSB. Partido comandado por Caio França, filho do Márcio França. Portanto, correligionário de Márcio França, candidato a vice de Haddad. Só existe um pequeno problema: Akira resolveu apoiar Tarcísio de Freitas do Republicanos.

E não parece ser um apoio envergonhado, daqueles que ficam escondidos atrás da cortina. Akira participou de reunião com prefeitos do Grande ABC destinada justamente a organizar a estratégia regional da campanha pela reeleição de Tarcísio de Freitas. 

Segundo o jornal Diário do Grande ABC, seis prefeitos participaram do encontro que definiu ações para fortalecer a candidatura do governador Tarcísio na região, justamente contra o candidato Fernando Haddad do PT, que tem Márcio França do PSB como seu vice.

Mais curioso ainda: Akira afirmou que mantém boa relação com Tarcísio e seu governo e disse que decidiu seguir com o governador. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, afirmou também não ter sido procurado pela equipe de Haddad e tão pouco pelo próprio Márcio França.

A situação fica ainda mais pitoresca quando se olha para outro personagem muito próximo politicamente de Márcio França, do PSB: Anderson Pomini, presidente da Autoridade Portuária de Santos (APS), responsável pela administração do Porto de Santos. 

Pomini não caiu de paraquedas no cargo. Quando Márcio França do PSBcomandava o Ministério de Portos e Aeroportos, foi ele quem indicou Pomini para presidir o Porto de Santos. Antes disso, em 2021, França chegou a integrar a banca de advocacia de Anderson Pomini, num escritório na rua Padre João Manuel, 755, no bairro Cerqueira César, em São Paulo.

Portanto, estamos falando de uma indicação política diretamente ligada a Márcio França. E onde apareceu recentemente Anderson Pomini?

Em um jantar promovido por Marcos Pereira, deputado federal e presidente nacional do Republicanos, justamente o partido do governador Tarcísio de Freitas. Eles foram fotografados no restaurante árabe Alyah, na avenida Indianópolis, Zona Sul de São Paulo. Estavam presentes também vários políticos que apoiam Tarcísio de Freitas, inclusive parlamentares do PSD de Gilberto Kassab.

É quase uma fotografia perfeita da política paulista de 2026. Márcio França é vice de Haddad. O prefeito do PSB no Grande ABC ajuda a organizar a campanha de Tarcísio, adversário de Haddad.

O homem indicado por França para comandar o Porto de Santos aparece no jantar do presidente nacional do partido de Tarcísio. E Fernando Haddad provavelmente ainda precisa agradecer ao PSB pelo apoio.

Porque, olhando de fora, fica difícil descobrir exatamente onde termina o PSB de Márcio França e onde começa o Republicanos do governador Tarcísio de Freitas. 

Poderíamos resumir essa situação política assim:  Márcio França do PSB pede votos para Haddad do PT. Um prefeito do PSB ajuda Tarcísio de Freitas do Republicanos. Anderson Pomini indicado pelo PSB de Márcio França janta com o presidente do Republicanos, que é o partido de Tarcísio de Freitas. E, no final de tudo, o contribuinte paga a quarentena do vice do Haddad que é o Márcio França do PSB.

E surge uma pergunta inevitável: afinal, no que exatamente o PSB paulista, de Márcio França, está ajudando Fernando Haddad? 

PSB paulista parece ter se transformado em um partido sem comando e sem compromisso com a própria palavra. Cada um faz o que quer, apoia quem lhe convém e escolhe o governador de acordo com seus interesses políticos e pessoais. A impressão é que a única coisa que ainda une os integrantes do PSB é a sigla e a pomba estampada na sua marca. Coerência, lealdade e ética viraram artigos de livre interpretação.

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