A Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo (Sefaz-SP) atravessa um momento que mistura crise administrativa, desgaste institucional e uma sucessão de episódios que colocam em xeque o discurso de rigor técnico da gestão estadual. No centro dessa turbulência está Marcelo Bergamasco Silva, cuja rotina funcional segue cercada de dúvidas — e, mais recentemente, de novos questionamentos internos.
Circulam com força nos bastidores da própria secretaria relatos de que Marcelo Bergamasco Silva teria voltado a despachar de Milão, na Itália, cidade onde mantém residência com a família. Ele está realmente a serviço ou de férias? Por que não saiu nada publicado no Diário Oficial do Estado (DOE)? Quem estaria substituindo Bergamasco?
Essas perguntas precisam ser respondidas. A possível retomada do trabalho remoto internacional levanta uma questão direta e incontornável: como conciliar essa prática com o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado após investigação da Corregedoria, que determinava o cumprimento de jornada exclusivamente presencial pelo período de dois anos?
A dúvida não é trivial. O TAC foi apresentado como resposta institucional a um caso que já havia gerado forte repercussão pública, após revelações de longas temporadas do subsecretário no exterior enquanto ocupava um dos cargos mais estratégicos da administração tributária paulista. À época, em vez de afastamento ou exoneração, a solução adotada foi um acordo considerado brando por críticos e até inócuo pelo próprio beneficiado.
A situação se agrava quando se observa o contexto mais amplo da secretaria. Episódios recentes reforçam a percepção de descontrole. Um deles ganhou contornos quase caricatos: um laptop da própria Sefaz-SP, utilizado por uma funcionária baseada em Portugal, foi enviado ao Brasil como carga comum, sem documentação fiscal, e acabou apreendido pela Receita Federal no aeroporto do Galeão. O Estado teve de arcar com multa para reaver o equipamento público.
O caso expõe mais do que um erro logístico. Ele revela a naturalização de práticas informais e o funcionamento de uma estrutura administrativa que parece operar à margem de regras básicas de controle patrimonial e responsabilidade funcional.
O Diário Oficial não informa nada sobre os auditores fiscais envolvidos em extorsão na Sefaz
No Diário Oficial do Estado, por exemplo, não há qualquer registro sobre a situação de Bergamasco, tampouco informação sobre quem estaria respondendo pela Diretoria de Fiscalização. Há relatos de que o titular não estaria comparecendo regularmente.
O DOE também não publicou a relação de quase 30 auditores fiscais afastados por extorsão praticada contra empresas e empresários. Quantos auditores fiscais estão, de fato, em atividade? Circulam, entre servidores da Sefaz-SP, informações de que novas operações estariam em preparação e que outras dezenas de auditores poderão ser afastadas por práticas semelhantes.
Paralelamente, outro episódio amplia o constrangimento institucional na Sefaz-SP. O auditor fiscal aposentado Alberto Toshio Murakami, investigado por envolvimento em um esquema bilionário de fraudes tributárias, encontra-se no exterior e teve seu nome incluído na difusão vermelha da Interpol. Procurado internacionalmente, ele alega possuir residência e projeto de vida fora do Brasil.
A justaposição desses três elementos — um subsecretário sob suspeita de atuar novamente desde a Itália, servidores operando do exterior com bens públicos e um auditor na lista de procurados internacionais — projeta uma imagem preocupante da Sefaz paulista. A secretaria, tradicionalmente associada à arrecadação e ao controle fiscal, passa a frequentar não apenas o noticiário econômico, mas também páginas policiais e investigações de alcance internacional.
Diante desse cenário, impõe-se um questionamento direto ao governador Tarcísio de Freitas: o cumprimento do TAC firmado por Marcelo Bergamasco está sendo efetivamente fiscalizado? E mais — é admissível, dentro das normas vigentes, que um alto dirigente da Receita Estadual exerça suas funções a partir do exterior, ainda que de forma informal ou intermitente?
A resposta a essas perguntas não diz respeito apenas a um caso individual. Ela toca no coração da credibilidade institucional da Secretaria da Fazenda e, por extensão, do próprio governo estadual. Em um ambiente já tensionado por denúncias de fraudes, sonegação e privilégios, a percepção de tolerância ou complacência pode custar caro para a imagem do governador Tarcísio de Freitas.


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