O ano eleitoral começou com mudanças estratégicas no secretariado do governo Tarcísio de Freitas, e uma delas expõe, de forma cristalina, os limites políticos da gestão do chefe da Casa Civil, Arthur Lima. Considerado até pouco tempo um dos auxiliares mais próximos do governador, Lima deixa o posto responsável pela articulação política e administrativa do Palácio dos Bandeirantes após um período marcado por ruídos, insatisfação interna e questionamentos públicos.
A saída de Arthur Lima da Casa Civil ocorre em meio a críticas recorrentes sobre sua incapacidade de exercer a principal função do cargo: o diálogo político. Reportagens de veículos de imprensa como a GloboNews, por exemplo, revelaram que aliados do próprio governador relatavam queixas constantes de parlamentares, prefeitos e empresários, todos incomodados com a falta de interlocução, acesso e coordenação da Casa Civil.
Em um governo que depende da articulação com a Assembleia Legislativa, prefeitos do interior e setores empresariais, a fragilidade política de Arthur Lima à frente da Casa Civil tornou-se um problema incontornável para o governador Tarcísio de Freitas.
Há relatos de empresários que apoiaram financeiramente a campanha e afirmam não terem sido sequer recebidos no Palácio dos Bandeirantes. Entre esses descontentes, cresce um discurso de rompimento político e de rejeição a qualquer apoio em 2026, classificado por eles como uma forma de “traição”. Como o ocorrido com os de Eldorado Paulista, como é conhecido o empresariado de Ribeirão Preto e região.
Não por acaso, Tarcísio optou por substituir Lima por Roberto Carneiro, presidente estadual do Republicanos, seu próprio partido, numa sinalização clara de que o governo entra no ano eleitoral buscando reforçar o controle político e reduzir improvisações.
A mudança não soa como promoção, mas como deslocamento estratégico: Arthur Lima deixa o coração político do governo para assumir a Secretaria de Justiça e Cidadania. O novo cargo, no entanto, não dissipa as controvérsias. Embora advogado, Arthur Lima tem uma trajetória fortemente marcada pelo meio militar.
O novo Secretário da Justiça e Cidadania, Arthur Lima, é bacharel em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras e especialista em formulação estratégica pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Sua formação e trajetória profissional reforçam o perfil técnico-militarizado que tem se tornado uma marca do governo Tarcísio, levantando questionamentos sobre a condução de uma pasta sensível como a Justiça por alguém sem histórico consolidado na área de direitos, cidadania ou mediação institucional.
Ex-sócio de Arthur Lima teria sido indicado por ele para receber gratificações em conselhos de estatais do governo de Tarcísio de Freitas
Além das dificuldades políticas, a passagem de Arthur Lima pela Casa Civil também foi atravessada por um episódio que levantou suspeitas de conflito de interesses. Em janeiro de 2024, o jornal O Estado de S. Paulo revelou que um sócio de Arthur Lima, o advogado Carlos Augusto Duque Estrada, foi nomeado para conselhos de administração de duas empresas estratégicas do governo paulista: a Desenvolve SP e a Prodesp, com remuneração mensal que ultrapassa R$ 26 mil.
As indicações passaram diretamente pela Casa Civil, que, por decreto do próprio governador, centralizou o poder de nomear e validar conselheiros de estatais — estrutura presidida pelo próprio Arthur Lima.
O caso ganhou contornos ainda mais delicados quando se tornou público que, poucos meses após Lima formalizar sua entrada na sociedade do escritório Duque Estrada Advogados Associados, a banca fechou um negócio de R$ 20 milhões envolvendo a antecipação de honorários de uma ação contra a antiga Varig. Parte desses créditos pode, em tese, vir a ser paga pelo próprio Estado de São Paulo, que responde judicialmente por passivos da extinta Vasp, também representada pelo escritório.
Embora o governo negue qualquer irregularidade e afirme que Arthur Lima não participou da operação nem recebeu valores, especialistas apontaram que o episódio levanta, no mínimo, fortes indícios de conflito de interesses. Segundo afirmou, na época, o professor José Rogério Cruz e Tucci, da Faculdade de Direito da USP, “a situação não configura ilegalidade explícita, mas evidencia indícios de tráfico de influência”, dada a sobreposição entre interesses privados e funções públicas”.
A transferência de Arthur Lima para a Secretaria de Justiça, portanto, não encerra os problemas de sua passagem pela Casa Civil — apenas os desloca. O que fica é o retrato de uma gestão politicamente frágil, marcada por isolamento, ruídos internos e decisões que expuseram o governo a constrangimentos desnecessários. Em vez de fortalecer a articulação institucional, a Casa Civil sob Arthur Lima tornou-se um ponto de desgaste para o próprio governador Tarcísio de Freitas.
Ao realocar Arthur Lima em uma nova função, Tarcísio de Freitas tenta corrigir o rumo no ano mais sensível de seu mandato — quando disputará a reeleição. Resta saber se Arthur Lima, à frente da Justiça paulista, conduzirá a pasta com mais diálogo, transparência e sensibilidade institucional do que demonstrou na Casa Civil — ou se o governador apenas trocou o problema de lugar.


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