O escândalo envolvendo o Partido Socialista Brasileira (PSB) em Diadema está longe de ser um ponto fora da curva. Trata-se, na verdade, de um retrato concentrado de uma crise moral, administrativa e política que corrói o PSB em São Paulo e projeta efeitos negativos para além das fronteiras estaduais. Um partido que construiu sua identidade pública na base do discurso da justiça social e da defesa dos mais vulneráveis conseguiu, na prática, deixar por quase trinta anos uma família de idosos pagar o preço de sua negligência documental e financeira.
O caso do terreno usado como sede partidária – que resultou em execuções fiscais, bloqueios judiciais e uma dívida de IPTU de R$ 274 mil lançada contra pessoas acima dos 65 anos – simboliza de forma didática a distância abissal entre a retórica socialista e a prática concreta do PSB paulista.
A postura adotada pelo PSB diante do episódio de Diadema revela um padrão bem conhecido: empurra-empurra interno, promessas vagas e uma completa ausência de responsabilização. A direção municipal de Cícero Antônio da Silva, o Cicinho, refugia-se em discursos genéricos sobre “regularização”, enquanto a direção estadual — ainda fortemente influenciada por Márcio França e seu núcleo familiar — e a direção nacional, presidida por João Campos, prefeito do Recife, preferem lavar as mãos com a tranquilidade de quem não teme a justiça.
O PSB reconhece o imóvel como sede oficial, mantém diretório ativo no endereço, mas se recusa a assumir a dívida que ajudou a gerar. Não se trata de um erro pontual, mas de uma cultura política que naturaliza a inadimplência e transfere custos a terceiros, inclusive aos mais frágeis, justamente aqueles que o discurso do PSB diz proteger.
As paspalhadas de Márcio França desde 2018 contribuíram para suas quatro derrotas eleitorais em São Paulo
Esse comportamento não é exceção. Ele se repete de forma quase sistemática nas campanhas eleitorais conduzidas ou influenciadas pelo socialista oportunista Márcio França desde 2018. Denúncias de calotes eleitorais se acumulam em diferentes pleitos, envolvendo agências de marketing, produtoras de vídeo e prestadores de serviço. Há registros de dívidas reconhecidas judicialmente, valores expressivos não pagos e justificativas recorrentes ancoradas na suposta falta de repasses do fundo partidário do PSB – um argumento que parece surgir sempre depois que o serviço já foi prestado.

O episódio da campanha de Tabata Amaral em 2024, marcado pela saída de profissionais em razão de atrasos nos pagamentos, soma-se a casos anteriores amplamente noticiados, reforçando a percepção de desorganização financeira e descompromisso contratual do PSB paulista.
Nem mesmo a esfera pessoal escapa desse histórico. Processos judiciais envolvendo reformas de alto padrão, realizadas em imóvel de luxo na Baixada Santista e não quitadas, ampliam o contraste entre o discurso público e a prática privada de Márcio França. A imagem que se consolida é a de um dirigente político incapaz — ou simplesmente indisposto — a honrar compromissos, seja com fornecedores, aliados ou cidadãos comuns.
Esse padrão ajuda a explicar não apenas as sucessivas derrotas eleitorais consecutivas de França em São Paulo, mas também o desgaste progressivo do PSB junto à opinião pública e aos próprios parceiros políticos. O discurso já não convence, e a prática está cobrando o seu preço.
O reflexo dessa trajetória problemática chegou a Brasília. O rebaixamento de Márcio França no governo Lula, com a perda do Ministério de Portos e Aeroportos e sua transferência para uma pasta de menor relevância política e estrutural, tornou-se símbolo do enfraquecimento do PSB no plano nacional.
O abandono político ficou ainda mais evidente no episódio envolvendo Anderson Pomini, sócio e advogado pessoal de Márcio França. Indicado por ele para presidir o Porto de Santos, Pomini não hesitou em buscar novo padrinho quando França perdeu prestígio no governo Lula. Aproximou-se rapidamente de Marcos Pereira, presidente do Republicanos e homem de confiança do bispo Edir Macedo, da Igreja Universal. A troca explícita de alianças escancarou o esvaziamento de poder de França e do PSB. Quando o comando enfraqueceu, até os mais próximos, como Pomini, trataram de pular do barco – antes que ele afundasse de vez.
O Partido Socialista Brasileiro, PSB, perdeu espaço, ministérios e poder de barganha. Com uma bancada reduzida e conflitos internos permanentes, sua capacidade de reação mínima. O declínio de Márcio França passou a representar, de forma emblemática, o declínio do próprio partido.
Do drama silencioso de uma família de idosos em Diadema ao esvaziamento político do PSB no governo federal, há um fio condutor claro: irresponsabilidade, má gestão e desprezo pelas consequências sociais de seus atos. O caso local escancara um problema estrutural. Quando um partido que se diz socialista passa a ser associado a calotes, omissões e cinismo institucional, o prejuízo não é apenas financeiro ou eleitoral — é ético, político e profundamente corrosivo para sua credibilidade.


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