Quando o Estado escolhe quem investigar: a resposta rápida na PM e a inércia na Fazenda paulista

Governador Tarcísio de Freitas, com o ex-secretário da segurança pública, capitão PM Guilherme Derrite, na posse do coronel José Augusto Coutinho, no comando da Polícia Militar

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Sob a gestão do governador Tarcísio de Freitas e com a atuação direta do Ministério Público de São Paulo duas áreas centrais do Estado — a Segurança Pública e a Fazenda — são hoje palco de denúncias graves de irregularidades. O contraste entre os dois casos é inevitável e expõe um padrão inquietante de atuação seletiva.

No episódio envolvendo a Rota, as denúncias de vazamento de informações ao Primeiro Comando da Capital (PCC), divulgadas pelo Estadão e pela Folha de S. Paulo, sustentadas pelo depoimento do promotor Lincon Gakyia, desencadearam uma reação rápida e contundente.

Foram iniciadas investigações, com atuação da Corregedoria, manifestação da Promotoria de Justiça Militar e, por fim, a queda do então comandante-geral da Polícia Militar, coronel José Augusto Coutinho. Houve mobilização institucional, apuração formal e consequências concretas diante de indícios graves de corrupção e infiltração criminosa.

Em sentido oposto, denúncias igualmente sensíveis envolvendo a Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo (SefazSP) seguem sem qualquer resposta efetiva. Relatos publicados pela Coluna Esplanada, do jornalista Leandro Manzzini , indicam que um servidor da secretaria teria vazado informações fiscais sigilosas ao Instituto do Combustível Legal (ICL)antecipando operações contra empresas do setor.

Diante de representantes da entidade, o consultor Mauro Viana fez uma revelação que provocou mal-estar imediato: mesmo de férias, o diretor do ICL, Carlos Faccio — figura central e influente dentro do instituto — teria recebido uma ligação de um integrante da SefazSP, que detalhou, passo a passo, medidas que a Fazenda paulista adotaria contra um desafeto declarado do instituto.

O episódio teria causado desconforto interno no próprio instituto e acendido alertas em áreas de compliance, mas, até o momento, não há notícia de investigação aprofundada ou responsabilização por parte do Ministério Público. Também permanece sem apuração o impacto potencial desse vazamento sobre a Operação Carbono Oculto, uma vez que a megaoperação que mirou o setor de combustíveis cumpriu apenas 6 dos 14 mandados de prisão expedidos — oito investigados fugiram.

A gravidade aumenta quando se observam possíveis conexões financeiras e institucionais. O ICL, financiado por grandes companhias do setor como Ipiranga,Petrobras e Raízen (Shell) destinou cerca de R$ 2 milhões a uma consultoria ligada ao ex-secretário da Fazenda, Luiz Cláudio Rodrigues de Carvalho, sem transparência sobre os serviços prestados.

Soma-se a isso o recebimento de R$ 300 mil em um único dia, por meio de três pagamentos idênticos de empresas do setor de sucata, com vínculos contábeis comuns, para o mesmo ex-secretário Luiz Cláudio — um padrão que levanta suspeitas evidentes e que, mesmo comunicado às autoridades do Ministério Público e à Ouvidoria da SefazSP, não gerou resposta proporcional.

Questões simples sobre o relacionamento entre o ICL e a Sefaz-SP permanecem sem resposta. Quantas vezes o secretário Samuel Kinoshita  e o subsecretário Marcelo Bergamasco se reuniram, na avenida Rangel Pestana, com diretores do instituto? Se a SefazSP tem a obrigação de fiscalizar todo o setor de combustíveis, por que apenas representantes de grandes grupos — como Ipiranga, Petrobras e Raízen (Shell) — teriam acesso privilegiado?

Esse cenário evidencia uma assimetria difícil de ignorar. De um lado, no caso da Polícia Militar, houve ação coordenada, pressão institucional e consequências rápidas. De outro, no âmbito da Fazenda paulista, denúncias que envolvem possível vazamento de informações fiscais, conflitos de interesse e relações financeiras suspeitas permanecem sem esclarecimento. A diferença de tratamento levanta uma pergunta incômoda: quais critérios determinam quando o Estado age com rigor e quando opta pela inércia?

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