Ricardo Nunes demite chefes do Carnaval e anuncia “maior festa da história”. Prefeito, em que mundo o senhor vive?

De um lado, a euforia oficial. De outro, a exoneração sumária de dois dos principais responsáveis pela engrenagem do Carnaval paulistano. A incongruência do prefeito Ricardo Nunes salta aos olhos

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A Prefeitura anunciou, com direito a números superlativos e loas em boca própria, que São Paulo realizou “o maior Carnaval de sua história”: 17,3 milhões de foliões, R$ 4 bilhões de impacto econômico, 55 mil empregos gerados. Segurança impecável, limpeza eficiente, mobilidade garantida, 98,5% de aprovação popular. Um roteiro de sucesso absoluto, embalado em estatísticas e declarações entusiasmadas de artistas.

Mas, enquanto a propaganda exaltava o feito histórico, o prefeito demitia o secretário adjunto de Turismo, Rodolfo Marinho, e o presidente da São Paulo Turismo (SPTuris), Gustavo Pires. A decisão veio após denúncias envolvendo contratos milionários sem licitação com a agência MM Quarter — empresa ligada a uma ex-sócia de Marinho e contratada, entre outros serviços, para organizar o próprio Carnaval.

A pergunta é inevitável: se foi a maior festa da história, com gestão exemplar e atuação integrada “sem registro de incidentes graves”, por que os principais dirigentes da área foram dispensados?

Anúncio da Prefeitura de São Paulo publicado na Folha OnLine

Ao demitir, o prefeito reconhece, no mínimo, que há algo errado. Ainda que afirme não haver irregularidade comprovada, a exoneração é um gesto político que pressupõe gravidade. Não se demite por excelência administrativa. Não se exonera por desempenho brilhante.

E, no entanto, quase simultaneamente, a máquina municipal divulga balanços triunfais e anúncios pagos celebrando o “sucesso” da festa. Quanto custa meia página de jornal para autopromoção? Quanto desse dinheiro sai do bolso do contribuinte paulistano para sustentar uma narrativa que convive com suspeitas e investigações?

“Elogio em boca própria é vitupério”, ensina o provérbio. Quando o autoelogio vem acompanhado de demissões por suspeita de irregularidades, o contraste beira o deboche.

A atitude também revela seletividade. Em outros episódios envolvendo aliados do prefeito — como os contratos emergenciais bilionários na Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras (Siurb) e as denúncias de suposto pedido de propina na Agência São Paulo de Desenvolvimento (ADE Sampa) — a postura não foi de exoneração imediata. Ao contrário: prevaleceram silêncio, defesa institucional e manutenção de cargos.

Por que, então, tamanha rapidez agora? A quem interessa o gesto exemplar?

Detalhe importante: no anúncio publicado pela Prefeitura dos 55 mil empregos gerados pelo evento, 18 mil eram da própria MM Quater

Nos bastidores, o clima na Prefeitura teria sido de tensão. Reuniões reservadas, entradas e saídas de gabinete com semblantes fechados, a presença de um advogado criminalista no edifício Matarazzo. Se até criminalista circula pelo centro do poder municipal, é porque a preocupação do prefeito e de seus principais assessores não é apenas administrativa — é jurídica.

O prefeito tenta separar duas narrativas: a da festa histórica e a das suspeitas contratuais. Mas ambas nasceram do mesmo processo administrativo. Não há como celebrar o modelo de gestão e, ao mesmo tempo, descartar seus responsáveis como se fossem peças defeituosas de uma engrenagem que teria funcionado perfeitamente.

Ou o Carnaval foi um sucesso exemplar sob comando de uma equipe competente — e, nesse caso, por que a demissão? Ou houve falhas graves na condução dos contratos — e, então, por que a propaganda triunfal?

Governar exige coerência. Quando o discurso oficial e os atos administrativos caminham em direções opostas, a dúvida deixa de ser retórica e se torna política.

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