Seis meses após a Operação Carbono Oculto, MP não dá respostas sobre Ipiranga, ICL e Brink’s

O silêncio das autoridades chama mais atenção do que as revelações já feitas. A Ipiranga aparece no centro de contratos milionários com sócios de fachada. A Brink’s é citada por transportar dinheiro vivo de postos investigados. E o Instituto Combustível Legal (ICL), que se apresenta como guardião da ética, não se manifesta sobre o envolvimento…

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Seis meses após a deflagração da Operação Carbono Oculto, em agosto de 2025, o que mais chama atenção não é apenas a dimensão do esquema de lavagem de dinheiro atribuído, se comprovado, ao Primeiro Comando da Capital (PCC) no setor de combustíveis, mas o silêncio institucional que se seguiu. 

Apesar de indícios graves envolvendo grandes corporações, fluxos bilionários e estruturas sofisticadas de ocultação patrimonial, o Ministério Público de São Paulo não apresentou até agora explicações públicas sobre porque determinados elos do esquema permanecem fora do alcance das investigações.

Um desses elos atende pelo nome de Ipiranga, uma das gigantes do setor de combustíveis no Brasil. Em 20 de dezembro de 2019, dentro de sua sede em São Paulo, a companhia assinou cerca de 40 contratos com três personagens sem relevância no setor — os irmãos Eduardo, Caio e Fábio Salomão — transferindo R$ 110 milhões captados pelo Grupo Ultra em operações no Brasil e na Bolsa de Nova York. 

Ipiranga teria comprado postos de gasolina de pessoas ligadas ao PCC

O objetivo declarado era recuperar espaço no mercado paulista. O problema é que a própria Junta Comercial indicava que os irmãos não eram os verdadeiros donos das empresas. Por que, então, a Ipiranga optou por ignorar registros oficiais? Por que assinou contratos com sócios de fachada, amparada por seu compliance, em vez de negociar com os reais proprietários?

As respostas nunca vieram. Nem para investidores, já que nenhum Fato Relevante foi publicado, nem para a sociedade. O caso do Autoposto S3 Juntasescancara o vício: avaliado em R$ 3,5 milhões em 2019 dentro da Ipiranga, foi vendido quatro anos depois por apenas R$ 300 mil a um investigado da própria Operação Carbono Oculto. Isso valia dez vezes mais quando justificava a injeção milionária de recursos da Ipiranga. Como explicar essa distorção? Quantos outros “ativos fantasmas” fizeram parte desse pacote de R$ 110 milhões?

Enquanto isso, outro elo sensível segue praticamente intocado: o transporte físico de todo esse dinheiro dos postos citados como sendo do PCC. Advogados da Levi Holding acusam a Brink’s de ter coletado e transportado grandes volumes de dinheiro vivo provenientes de postos investigados por ligação com o PCC, seguindo ordens de terceiros sem vínculo societário formal. 

Brinks teria transportado dinheiro de postos suspeitos de pertencerem ao PCC

A denúncia descreve um “comando paralelo” que teria operado à margem da estrutura oficial, neutralizando penhoras judiciais e complementando esquemas digitais já investigados. Se a Brink’s é obrigada por lei a manter registros detalhados de coletas, rotas e entregas, por que esses documentos ainda não vieram a público? Para onde foi o dinheiro? Quem autorizou as operações?

A resposta da Brinks limitou-se a um comunicado genérico sobre “idoneidade” e “confidencialidade”, sem enfrentar o ponto central das acusações. Não negou os fatos, não esclareceu as ordens externas, tampouco informou se colaborou com as autoridades. Diante da gravidade das suspeitas, o silêncio soa menos como prudência e muito mais como estratégia.

Instituto do Combustível Legal mantém silêncio sobre as irregulariedades da Ipiranga

No centro dessa engrenagem está ainda o Instituto Combustível Legal (ICL), financiado por gigantes do setor e apresentado como guardião da ética. A contradição é evidente: como uma entidade que se diz dedicada a combater fraudes convive com uma de suas mantenedoras  – Ipiranga – que despejou R$ 110 milhões em contratos suspeitos com sócios ocultos ligados a investigados do PCC?

Por que o ICL nunca se manifestou publicamente sobre esse episódio? E por que a Secretaria da Fazenda de São Paulo ignora pedidos de informação sobre reuniões de seus dirigentes, justamente no contexto da Operação Carbono Oculto?

As perguntas se acumulam, mas as respostas não vêm. O Ministério Público, até agora, não explicou por que a transação da Ipiranga não foi enfrentada com a mesma contundência aplicada a outros operadores menores. 

Não esclareceu se, em algum momento, investigou o papel do transporte físico desses valores milionários no esquema de lavagem de dinheiro que teria sido feito pela Brinks, segundo denúncia feita por um dos sócios que diz não ter recebido seus rendimentos.

Tampouco respondeu às denúncias de vazamento de informações sigilosas da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo (Sefaz-SP), feitas pelo jornalista Leandro Mazzini, que podem ter comprometido a própria Operação Carbono Oculto.

Num país em que o discurso de compliance virou mantra corporativo, o caso expõe sua face mais perversa: quando é usado não para prevenir crimes, mas para dar verniz de legalidade a operações de grandes players do setor de combustíveis.

O silêncio, seis meses após a deflagração da Operação Carbono Oculto, revela como grandes estruturas econômicas e institucionais podem funcionar como escudos — e não como barreiras — contra a lavagem de dinheiro.

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